A pasta azul estava no fundo da gaveta, atrás dos documentos do carro. Luísa achou por acaso, procurando a certidão do Miguel.
Ela abriu. A primeira página tinha a data de três anos atrás. Mês em que descobriram a gravidez.
— O que é isso? — Carlos perguntou da porta.
— O planejamento financeiro do Miguel.
— Você guardou?
— Guardei.
Ela sentou na cama. Folheou as páginas. Roupas, fraldas, pediatra, enxoval. Tudo anotado com caneta azul.
— A gente gastou mais ou menos do que planejou?
— Mais. — Ela riu. — Muito mais.
— Quanto a mais?
— Dobro.
Ele sentou do lado.
— Por que você não fez um plano mais realista?
— Porque eu não sabia. — Ela virou a página. — Eu pesquisei, perguntei, li. Mas a realidade é diferente.
— Em quê?
— Fralda. Eu calculei trezentas por mês. Gastamos quatrocentas.
— E o pediatra?
— Calculei duas consultas por mês no primeiro ano. Foram quatro.
— E o enxoval?
— Calculei que a família daria metade. Deram um terço.
Carlos pegou a pasta. Leu as anotações.
— Você se preparou bem.
— Me preparei. Mas não sabia o que não sabia.
— E se soubesse?
— Teria juntado mais. — Ela olhou a pasta. — E teria começado antes.
— Antes?
— Antes de engravidar. A gente começou a juntar dinheiro depois do positivo. Se eu pudesse voltar, começaria um ano antes.
— Um ano?
— Um ano. Doze meses de reserva.
— Mas a gente não sabia quando ia engravidar.
— Não sabia. Mas podia ter uma poupança separada. Se viesse, ótimo. Se não viesse, usava pra outra coisa.
Ele ficou em silêncio.
— Você pensa em ter outro?
— Penso. — Ela fechou a pasta. — Mas se for, vai ser com planejamento.
— Planejamento realista?
— Realista com margem. — Ela apoiou a pasta no colo. — A gente aprendeu que filho custa mais do que parece. E que não adianta subestimar.
— O que você faria diferente?
— Juntaria uma reserva de emergência antes. Não só pro enxoval.
— Quanto?
— Seis meses de custo do bebê.
— Quanto é isso?
— Uns quinze mil.
Ele assobiou.
— É dinheiro.
— É. Mas se vier um imprevisto, não desespera.
— E a gente vai conseguir?
— Se a gente planejar, sim.
Ele apertou a mão dela.
— Então a gente planeja.
— A gente?
— A gente. Juntos.
Ela guardou a pasta na gaveta. Atrás dos documentos do carro.
— Tá bom.
— Tá bom.
— Mas primeiro?
— Primeiro?
— A gente termina de criar o Miguel. Depois pensa no próximo.
— E se demorar?
— Demora. — Ela sorriu. — Mas quando vier, a gente tá pronto.
Fora da janela, o Miguel brincava no quintal. A boneca de pano na mão. O sol no rosto.
Luísa olhou pra ele. Três anos. Três anos de aprendizado.
O próximo viria. Mas só quando a planilha estivesse pronta.
*Continua em: livreto-160.md — Carlos — Custos de educação*