Carlos chegou do trabalho e encontrou o Miguel no chão da sala, os carrinhos espalhados, um cofrinho de porco no meio.
— Pai, a mãe deu um cofre.
— Bonito.
— É rosa.
— Rosa é legal.
— Cofre não pode ser azul?
— Pode. Mas o rosa é bonito também.
Miguel balançou o cofre. Fazia barulho de moeda.
— Tem dinheiro aí dentro?
— Tem. A mãe colocou as moedas do troco do pão.
— Quanto?
— Não sei. Mas a mãe falou que quando encher, eu posso comprar o que quiser.
Carlos sentou no chão.
— Deixa eu ver.
Miguel entregou o cofre. Carlos pesou na mão.
— Tá quase pela metade.
— Quanto falta?
— Uns três meses.
— Três meses?
— Mais ou menos.
— É muito.
— Não é. Três meses passa rápido. — Carlos devolveu o cofre. — O segredo é não tirar o dinheiro antes da hora.
— Tirar?
— Abrir o cofre antes de encher.
— Pra quê?
— Porque você vê uma coisa que quer e acha que precisa agora.
— E não precisa?
— Quase nunca.
Miguel colocou o cofre no colo.
— E se eu precisar mesmo?
— Aí você abre. Mas pensa antes.
— Pensa?
— Pergunta: eu quero isso agora ou posso esperar?
— E se eu puder esperar?
— Aí espera. O dinheiro rende.
— O que é rende?
— Cresce. Enquanto você espera, junta mais.
Miguel franziu a testa.
— É igual planta?
— É. Você planta a semente, rega, espera. Depois colhe.
— O cofre é a planta?
— O cofre é o vaso. O dinheiro é a semente. — Carlos apontou pro cofre. — Cada moeda que cai lá dentro é água.
— E a hora de colher?
— Quando encher.
Miguel levantou o cofre. Olhou pelo buraquinho.
— Tá escuro lá dentro.
— Dinheiro gosta de escuro.
— Por quê?
— Porque assim ninguém vê e ele fica seguro.
— Nem os ladrão?
— Nem os ladrão.
Miguel guardou o cofre na estante. Bem no alto, onde ele alcançava na ponta do pé.
— Pai.
— Fala.
— Todo dia eu vou colocar uma moeda.
— Todo dia?
— Todo dia.
— Até encher?
— Até encher.
Carlos olhou o filho. A seriedade no olhar. A mão no cofre.
— Combinado.
Eles apertaram a mão. O Miguel segurou firme.
Naquela noite, antes de dormir, Carlos viu o Miguel colocar uma moeda no cofre. Uma só. Com cuidado.
— Tá regando a planta? — Carlos perguntou.
— Tô.
— Boa noite, filho.
— Boa noite, pai.
A moeda tilintou dentro do cofre.
Mais uma semente plantada.
*Continua em: livreto-157.md — Luísa — Gastos com filho adolescente*