Como dar mesada para crianças pequenas?

Luísa

Três semanas de mesada e o Miguel ainda não tinha gasto nada.

— Mãe, eu tenho quinze reais.

— Quinze reais?

— Juntei três semanas.

Luísa parou de lavar a louça.

— E você não quer comprar nada?

— Quero comprar o carrinho azul. Mas ele custa vinte.

— Então falta cinco.

— Falta.

Ele abriu a mão. As três notas de cinco estavam amassadas de tanto ele olhar.

— Onde você guarda?

— Debaixo do travesseiro.

Luísa secou as mãos.

— Vem cá.

Ela levou ele até o quarto. Abriu a gaveta do criado-mudo.

— Olha. Se você guardar aqui, o dinheiro não amassa.

— Mas eu gosto de ver.

— Você pode ver todo dia. Mas guarda dobrado.

Miguel colocou as notas na gaveta. Dobrou com cuidado.

— Mãe.

— Fala.

— Quanto tempo falta pra eu ter vinte?

— Uma semana.

— Uma semana inteira?

— Sete dias.

Ele suspirou.

— É muito.

— É. Mas você já esperou três semanas. Falta uma.

— E se eu gastar agora?

— Aí você compra uma coisa de quinze. E o carrinho azul fica na vitrine.

Ele pensou. A testa franzida.

— Não. Eu quero o azul.

— Então espera.

— Você espera as coisas?

— Espero. — Ela sentou na cama. — Nem sempre. Mas quando é importante, espero.

— O que você esperou?

— O carro. A gente juntou dois anos pra comprar.

— Dois anos?

— Dois anos.

— É muito.

— É. Mas o carro tá na garagem.

Miguel olhou pra gaveta.

— Então eu espero uma semana.

— Boa escolha.

— E depois eu compro o carrinho.

— E depois você decide o que quer comprar com o dinheiro da semana seguinte.

Ele sorriu.

— O dinheiro nunca acaba?

— Acaba. — Ela passou a mão no cabelo dele. — Mas se você planejar, rende mais.

— Rende?

— Dura mais.

Ele abriu a gaveta de novo. Olhou as notas.

— Tá bom.

Fechou.

Na sexta seguinte, ele pegou os vinte reais e foi com o pai até a loja. Voltou com o carrinho azul na mão. Aberto. Os olhos brilhando.

— Mãe! Olha!

— Lindo.

— Esperei quatro semanas!

— E valeu a pena?

— Valeu!

Ele passou a tarde inteira brincando. O carrinho azul na mão. As rodas girando no chão.

De noite, antes de dormir, ele guardou o carrinho na estante. Bem no centro. Onde ele pudesse ver quando acordasse.

Luísa apagou a luz.

— Mãe.

— Fala.

— Amanhã eu começo a juntar de novo.

— Pra quê?

— Pro caminhão vermelho.

Ela riu no escuro.

A primeira mesada tinha ensinado mais do que dinheiro. Tinha ensinado espera.

*Continua em: livreto-156.md — Carlos — Ensinar filho a poupar*