Como lidar com mesada para adolescentes?

Carlos

Pedro chegou no sábado com a mochila e um humor estranho. Carlos notou na hora — o jeito que ele jogou a mochila no sofá, o silêncio no caminho da sala.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada.

— Pedro.

— É nada.

Carlos esperou. Sentou no sofá. Deixou o silêncio.

— Tô sem dinheiro — Pedro soltou.

— Semana passada eu te dei mesada.

— Gastei.

— Gastei? Ou gastou?

— Gastei. — Pedro passou a mão no cabelo. — Fui no shopping com a galera.

— E gastou tudo?

— Comprei um tênis.

— O tênis que você queria?

— Não. — Ele riu, sem graça. — Comprei um lanche. O tênis eu nem vi direito.

Carlos apoiou o braço no encosto.

— Você sabe que mesada não é salário, né?

— Sei.

— É um valor que a gente combinou pra você aprender a administrar.

— Eu sei.

— E você gastou em um dia.

Pedro mordeu o lábio.

— Eu tô ligado, pai. Fui burro.

— Não é burrice. É impulso.

— Qual a diferença?

— Burrice é repetir o erro sem aprender. Impulso é gastar sem pensar. — Carlos inclinou o corpo. — Impulso dá pra consertar.

— Como?

— Você aprende. E da próxima vez, pensa antes.

— E até lá?

— Até lá, você fica sem.

Pedro suspirou.

— Mas tem um rolê semana que vem.

— Tudo bem.

— Todo mundo vai.

— Tudo bem.

— Pai.

— Pedro. Você gastou o dinheiro do mês em um dia. A consequência é não ter dinheiro até a próxima mesada. — Carlos falou sem alterar a voz. — Isso não é castigo. É a vida real.

Pedro ficou em silêncio. Olhou pro chão.

— O Davi pede dinheiro extra pro pai dele.

— Aqui não funciona assim.

— Eu sei.

— Você quer que funcione?

— Não. — Ele levantou a cabeça. — Sei que o combinado é o combinado.

— E o rolê?

— Vou. Só não vou gastar.

— Vai sem dinheiro?

— Vou. Os amigos pagam meu lanche. Depois eu pago de volta quando receber.

Carlos olhou o filho. Quinze anos. A barba começando a aparecer. A voz mudando.

— Você pensou numa solução.

— Pensei.

— Boa.

— Boa?

— Melhor do que pedir dinheiro. Você resolveu com o que tinha.

Pedro sorriu. Um sorriso pequeno.

— Então não tô de castigo?

— Não. — Carlos levantou. — Só tô te ensinando que dinheiro acaba. E que você é capaz de resolver sem mim.

— Obrigado, pai.

— De nada.

Carlos foi pra cozinha. Abriu a geladeira. Sentiu o vento frio no rosto.

Adolescente era assim. Errava, aprendia, errava de novo. O papel dele não era impedir o erro. Era estar perto quando a lição viesse.

*Continua em: livreto-155.md — Luísa — Mesada para crianças pequenas*