Miguel chegou da escola com a mochila nas costas e uma pergunta na ponta da língua.
— Mãe, o Davi ganha dinheiro toda semana.
— Dinheiro?
— Mesada. A mãe dele dá cinco reais toda sexta.
Luísa largou a colher na pia.
— E você quer mesada também?
— Quero.
— Pra quê?
— Pra comprar figurinha.
Ela secou as mãos no pano da cozinha.
— Senta aqui.
Miguel sentou na cadeira. As pernas balançando.
— Mesada não é só dinheiro — Luísa disse. — É responsabilidade.
— Como assim?
— Você vai ter que escolher no que gastar. E se gastar tudo no primeiro dia, depois não tem mais.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
— Sei. — Ele balançou a cabeça. — O Davi comprou um carrinho na segunda e ficou sem dinheiro a semana inteira.
— E ele aprendeu?
— Aprendeu. — Miguel sorriu. — Ele falou que na próxima vai guardar.
Luísa sentou na frente dele.
— Então vamos fazer um teste.
— Teste?
— Um mês de mesada. Cinco reais toda sexta. Você decide o que faz com o dinheiro, mas não pode pedir mais.
— Nem pra figurinha?
— A mesada é pra figurinha. Se você quiser outra coisa, guarda.
— Guardar?
— Junta o dinheiro de uma semana com o da outra.
— Quanto tempo?
— Até ter o suficiente.
Miguel pensou.
— E se eu gastar tudo?
— Aí você espera a próxima sexta.
Ele franziu a testa.
— É difícil.
— Responsabilidade é difícil.
— Mas vale a pena?
— Depende. — Luísa apoiou o queixo na mão. — Se você quer o dinheiro, vale. Se não quer, não vale.
— Eu quero.
— Então combinado.
Na sexta, Luísa colocou a nota de cinco na mão dele. Miguel olhou o dinheiro como se fosse um troféu.
— Obrigado, mãe.
— Não gasta tudo de uma vez.
— Vou guardar.
— Guardar?
— Vou juntar até ter vinte. Aí compro o carrinho azul.
— O carrinho azul custa vinte?
— Custa. Eu vi na vitrine.
— E você vai esperar quatro semanas?
— Vou.
Ela duvidou. Mas não falou.
No sábado, ele chegou com o dinheiro ainda no bolso.
No domingo, também.
Na segunda, ele contou as notas debaixo do travesseiro.
Luísa olhou da porta. Cinco reais. Quatro semanas. Vinte reais.
A primeira lição de paciência. E ele tinha aprendido antes do que ela esperava.
— Tá orgulhosa? — Carlos perguntou.
— Tô.
— Eu também.
Ele apertou a mão dela.
O carrinho azul esperava na vitrine. E o Miguel esperava também.
*Continua em: livreto-154.md — Carlos — Mesada para adolescentes*