Como apoiar a adoção por um casal homoafetivo na família?

Carlos

O almoço de domingo na casa da Dona Lúcia estava quase no fim quando a prima Helena soltou a notícia.

— Nós vamos adotar.

Todo mundo olhou. Ela e a Fernanda, a namorada, lado a lado na mesa.

— Que notícia boa! — a Clarinha disse.

O silêncio da Dona Lúcia durou dois segundos a mais que o normal.

— Adotar? — ela repetiu.

— Uma criança. — Helena segurou a mão da Fernanda. — Já estamos no processo.

A mesa ficou pesada. O tio João coçou a cabeça. A prima Solange olhou pro prato.

— E a criança? — a Dona Lúcia perguntou.

— Dois anos. Menino.

— E vocês vão dar conta sozinhas?

Helena respirou fundo.

— Mãe, a gente trabalha, tem casa, tem plano.

— Não é disso que eu tô falando.

— Do que então?

Dona Lúcia colocou o guardanapo na mesa.

— Criança precisa de pai e mãe.

O silêncio apertou. Carlos sentiu o olhar da Luísa.

— Mãe — ele disse.

Todo mundo virou pra ele.

— Pai e mãe não define criação. Define cuidado.

— Você tem filho — a Dona Lúcia respondeu. — Sabe que não é a mesma coisa.

— Sei que não é a mesma coisa. — Carlos manteve a voz baixa. — Mas também sei que amor não depende de gênero.

— Não é sobre gênero.

— É sobre o quê?

Dona Lúcia apertou os lábios.

— Sobre a criança ser criada por duas mulheres.

— E daí?

— Carlos.

— Mãe. — Ele inclinou o corpo. — A Helena é sua filha. Ela nunca foi menos sua filha por não gostar de meninos.

— Não é a mesma coisa.

— É exatamente a mesma coisa. — A voz dele não subiu, mas ficou firme. — Você ama a Helena. A Helena vai amar essa criança. Ponto.

— E o pai?

— A criança não tem pai. Vai ter duas mães. É melhor do que não ter ninguém.

O silêncio voltou. A Fernanda apertou a mão da Helena embaixo da mesa.

— Vó — o Miguel apareceu na porta da cozinha —, acabou o suco.

Dona Lúcia levantou. Foi até a geladeira. Serviu o suco sem olhar pra ninguém.

Quando ela voltou, a mesa respirava diferente.

— Desculpa, Helena — Dona Lúcia disse. — Eu fui grossa.

— Foi.

— Eu não sei lidar com coisas novas.

— Eu sei. — Helena levantou. — Mas a Fernanda não merece ouvir isso na casa da sogra.

— Merece não. — Dona Lúcia segurou a mão da nora. — Desculpa, Fernanda.

Fernanda engoliu seco.

— Tudo bem.

— Não é tudo bem — a Dona Lúcia disse. — Mas pode virar.

Helena olhou pro irmão. Carlos deu de ombros.

— Ela aprende — ele disse.

— Aos poucos — a Dona Lúcia completou.

— Aos poucos — Helena repetiu.

O Miguel voltou com o copo vazio. Olhou pra tia.

— Tia Helena, você vai ser mãe?

— Vou.

— Legal. — Ele subiu no colo dela. — Eu gosto de mãe.

Helena riu. O riso molhado, aliviado.

— Eu também gosto de mãe, Miguel.

— Então tá bom.

E pronto. A mesa voltou a ser família.

*Continua em: livreto-153.md — Luísa — Mesada com os filhos*