Como proteger a privacidade das crianças nas redes sociais?

Luísa

Luísa estava no celular, passando as fotos do fim de semana. O Miguel no parque, o Miguel comendo sorvete, o Miguel abraçando o Toby.

Ela parou numa foto: ele dormindo no carro, a boca entreaberta, a mão no vidro. Era fofa.

O dedo pairou sobre o botão de postar.

— O que cê tá fazendo? — Carlos perguntou do sofá.

— Escolhendo foto do Miguel.

— Vai postar?

— Tô pensando.

Ele largou o livro.

— Deixa eu ver.

Ela virou o celular. Carlos olhou a foto.

— Ele tá dormindo.

— Tá.

— Com a boca aberta.

— E?

— Ele ia gostar de saber que você postou isso?

— Ele tem três anos.

— E daqui a dez anos, ele vai ver.

Luísa abaixou o celular.

— Você acha que eu posto demais?

— Acho que você posta. Cada um decide.

— Mas?

— Mas hoje em dia, tudo que sobe fica.

— Eu sei.

— E você não tem controle sobre quem vê.

— Eu sei.

— E depois que posta, não volta.

— Carlos.

— Falei.

Ele pegou o livro de novo.

Luísa olhou a foto. O sorriso bobo do Miguel dormindo. O nariz sujo de sorvete.

Ela guardou o celular.

— Você tem razão.

— Tenho?

— Tem. — Ela deitou no sofá, a cabeça no colo dele. — Mas é difícil.

— Difícil não postar foto bonita?

— Difícil pensar que ele pode não gostar depois.

— Então guarda pra ele. — Carlos passou a mão no cabelo dela. — Daqui a vinte anos, ele vai ver as fotos que você guardou. Nos seus olhos, não nos olhos dos outros.

— Você pensa nisso?

— Penso. O Pedro me ensinou. — Ele pausou. — Quando ele era pequeno, a ex postava tudo. Hoje ele tem vergonha das fotos que tão na internet.

— Ele fala isso?

— Falou um dia. Disse que não gosta que as pessoas vejam ele criança sem ele escolher.

Luísa ficou em silêncio.

— Você quer que eu apague as que já postei?

— Não. — Ele beijou a testa dela. — Só pense antes das próximas.

— E a foto do sorvete?

— Essa você pode mandar no grupo da família. Depois de amanhã, já esqueceram.

— Mas não postar?

— Guarda no álbum.

Ela pegou o celular de novo. Criou uma pasta. Colocou a foto do sorvete, a do parque, a do Toby.

— Pronto.

— Pronto?

— As fotos tão guardadas.

— Boa mãe.

— Boa mãe pensa.

Ela encostou a cabeça no peito dele. O ventilador no teto. O Toby roncando no canto.

— Carlos.

— Fala.

— Obrigada.

— Pelo quê?

— Por lembrar que ele é uma pessoa. Não um personagem.

Ele apertou a mão dela.

Depois de amanhã, a foto do sorvete apareceu no grupo da família. Todo mundo amou. Três dias depois, ninguém lembrava.

Luísa guardou o celular. Pegou o caderno de desenho do Miguel. Abriu na página que ele tinha rabiscado de manhã.

Era um sol amarelo, um cachorro marrom, e três bonecos segurando as mãos.

Ela guardou o caderno. Fechou os olhos.

Essa foto, ela não postava nunca.

*Continua em: livreto-152.md — Carlos — Adoção por casal homoafetivo na família*