A Clarinha chegou no almoço de domingo com uma lista.
— Olha — ela disse, espalhando papéis na mesa. — A família inteira mandou sugestão de nome.
Carlos olhou a lista. Sete nomes. Nenhum combinava com nada que ela tinha dito antes.
— Júlio? — ele leu.
— Foi a tia Margarida.
— E Jonas?
— O Beto.
— Jonas?
— Jônatas. Mas ela escreveu errado.
Carlos riu.
— E qual nome você quer?
— Não sei ainda.
— Desde quando?
— Desde que descobri que tô grávida. — Clarinha juntou os papéis. — Mas a família inteira já tem opinião.
— Ignora.
— Não dá.
— Dá. É só falar que já escolheram.
— Mas não escolhemos.
— Escolhe agora.
— É difícil. — Ela apoiou o queixo na mão. — Cada nome carrega uma expectativa.
Carlos sentou na cadeira da cozinha. A luz da manhã entrava pela janela.
— Quando eu escolhi o nome do Miguel, todo mundo palpita.
— E você?
— Ignorei. — Ele cruzou os braços. — No começo a Dona Lúcia falou que Miguel era nome de anjo, que ia dar problema. Depois ela acostumou.
— E a Luísa?
— Concordou comigo. A gente escolheu junto. Não abriu pra votação.
— Como vocês fizeram?
— Anotamos três nomes que a gente gostava. Fechamos a porta. Decidimos. Depois contamos.
— Simples assim?
— Simples. — Ele inclinou a cadeira. — Se você abre pra palpite, o palpite nunca acaba.
Clarinha guardou os papéis na bolsa.
— Tô pensando em Helena.
— Bonito.
— Se for menina.
— Se for menino?
— Pedro. Como o sobrinho.
— Vai ser Pedro 2.
— Pedro é nome de imperador.
— Pedro é nome de gente. — Carlos riu. — Mas se vocês gostam, é o que importa.
— O Beto falou que Pedro é nome velho.
— O Beto não vai criar.
— Verdade.
— A escolha é sua e do João. Mais ninguém.
Clarinha suspirou.
— É difícil ignorar a família.
— Não é ignorar. É decidir antes de perguntar. — Ele levantou. — A família pode opinar depois que o nome já tá escolhido.
— E se reclamar?
— Deixa reclamar. Bebê nasce, todo mundo esquece o nome e começa a amar a criança.
Clarinha ficou em silêncio.
— Você mudou, Carlos.
— Mudei não. Só aprendi que não dá pra agradar todo mundo.
— E isso te preocupa?
— Não mais.
Ela sorriu. Guardou a bolsa.
— Vou falar pro João que a gente fecha os nomes hoje.
— Fecha.
— E se a família reclamar?
— Eles vão reclamar.
— E o que eu faço?
— Nada. — Carlos abriu a geladeira. — Deixa eles reclamarem. Depois do chá de fralda, ninguém lembra mais.
*Continua em: livreto-151.md — Luísa — Privacidade das crianças nas redes sociais*