Como dar conselhos sobre criação de filhos sem ser intrometido?

Luísa

O almoço na casa da Dona Lúcia já tinha terminado. Todo mundo na sala. O café passando. O bolo de fubá no centro da mesa.

A prima Lorena veio com a filha no colo. A menina tinha dois anos e não largava a chupeta.

— Ela só dorme com a chupeta — Lorena disse. — Se tiro, ela chora a noite inteira.

— E o dentista? — a tia perguntou.

— Falei que tem que tirar até os três.

— Três é tarde.

— Eu sei.

Luísa ficou em silêncio. Mexia o café.

— Eu tirei a do Miguel com dois — a tia continuou. — Uma semana de choro e pronto.

— Cada criança é diferente — Luísa disse.

A tia virou pra ela.

— Mas você concorda que chupeta depois dos dois estraga o dente?

— Pode estragar. Mas não é garantido.

— E o psicológico? — Lorena perguntou.

— Também pode afetar. — Luísa colocou a xícara na mesa. — Mas a pergunta é: você quer tirar agora?

— Quero. Mas não aguento o choro.

— Então tira devagar. Primeiro só no sono. Depois tira de vez.

— Já tentei.

— Tentou por quanto tempo?

— Três dias.

— É pouco.

Lorena suspirou.

— Você acha que eu desisti cedo?

— Cedo não. — Luísa sorriu. — Cedo é quando você nem tenta.

— Você é irritante.

— Eu sei.

Lorena riu.

— E você, nunca deu um conselho errado?

— Dei vários. — Luísa pegou um pedaço de bolo. — O que funciona pro Miguel pode não funcionar pro seu filho.

— E como eu descubro o que funciona?

— Tentando. Errando. Escutando. — Ela mordeu o bolo. — E ignorando quem acha que sabe tudo.

A tia arregalou o olho.

— Tô sentida.

— Tia, você é ótima. Mas não sabe o que funciona pra menina da Lorena.

— Nem você — a tia rebateu.

— Nem eu. — Luísa levantou a xícara. — Por isso eu só falo quando perguntam.

Lorena olhou pra ela.

— E quando eu te pergunto?

— Aí eu falo o que eu acho. Mas se você fizer diferente, não vou ficar ofendida.

Lorena ficou em silêncio. A filha no colo, a chupeta na boca.

— Posso tentar de novo — Lorena disse. — Devagar.

— Devagar é melhor que não tentar.

— E se não funcionar?

— Tenta de outro jeito.

— E se nenhum jeito funcionar?

— Aí você aceita que essa é a filha que você tem. Não a que você imaginou.

O silêncio ficou mais pesado. Lorena olhou pra menina.

— Ela é teimosa.

— Puxou a mãe.

Lorena riu.

— Puxou mesmo.

O café passou. O bolo acabou. A menina dormiu no colo da mãe, chupeta na boca, os dedos enroscados no cabelo da Lorena.

Luísa olhou aquela cena e pensou: ninguém sabe de nada. A gente só aprende junto.

*Continua em: livreto-150.md — Carlos — Família que dá palpite no nome do bebê*