A Clarinha apareceu no sábado de manhã. Trouxe café e uma notícia.
— Tô grávida.
Carlos parou com a xícara no ar.
— Como assim?
— Grávida. De três meses.
A xícara desceu. O café quase entornou.
— Caramba, Clar.
— Caramba é a reação?
— Não, é surpresa. Boa surpresa.
Clarinha riu. Ela brilhava. O cabelo solto, a blusa larga, a mão no ventre.
— O Beto já sabe?
— Sabe. Todo mundo sabe. Você é o último.
— Último que fica sabendo de tudo.
— Porque você não atende telefone.
Carlos colocou a xícara na mesa. Abraçou a irmã.
— Tô feliz por você.
— Obrigada.
— E o Miguel vai ganhar um primo.
— Ou prima.
— A gente não sabe ainda.
— Também não sei.
Carlos sorriu. Soltou a irmã.
— Vai mudar tudo, né?
— Muda. — Clarinha sentou. — Mas muda pra melhor.
— Dói?
— O quê?
— Ter filho.
— Dói. Mas passa. Depois você esquece.
— Esquece?
— Esquece. Ou pelo menos fica aceitável.
Ela riu de novo.
— E você, Miguel vai ganhar um irmão?
Carlos pensou na pergunta.
— A gente ainda não sabe.
— Mas pensa?
— Pensa.
— O que a Luísa acha?
— Também pensa.
Clarinha inclinou a cabeça.
— Vocês tão adiando?
— A gente tá esperando o momento certo.
— E quando é?
— A gente vai saber.
— Ninguém sabe. Ninguém nunca sabe. — Ela pegou a xícara. — A gente acha que sabe, mas não sabe.
— Você tá falando como mãe experiente.
— Tô falando como irmã. Se você esperar o momento certo, espera pra sempre.
Carlos não respondeu.
Naquela noite, ele contou pra Luísa.
— A Clarinha tá grávida.
— Nossa. — Luísa largou o livro no colo. — Ela que contou?
— Veio hoje de manhã.
— E como você recebeu?
— Abracei. Falei que tava feliz.
— E tá?
— Tô. — Ele sentou na cama. — É que me fez pensar.
— Pensar?
— Se a gente vai ter outro.
Luísa ficou em silêncio. O ventilador no teto girava.
— A Clarinha falou que se a gente esperar o momento certo, espera pra sempre.
— Ela falou isso?
— Falou.
— Ela tem razão. — Luísa apoiou a mão na perna dele. — Mas também não é motivo pra apressar.
— Eu sei.
— A gente vai saber. Quando for a hora.
— E se a hora nunca chegar?
— Aí a gente fica com o Miguel. E tá bom.
Carlos olhou pra ela. O cabelo solto. O olhar calmo.
— Tá bom?
— Tá ótimo.
Ele deitou. O travesseiro cheirava a sabão.
— Mas e se chegar?
— Aí a gente descobre junto.
A mão dela encontrou a dele no escuro.
*Continua em: livreto-149.md — Luísa — Dar conselhos sobre criação sem ser intrometido*