Como ajudar uma criança a processar o luto?

Luísa

A noite caiu e o Miguel não queria dormir. Ficava virando na cama, apertando o urso de pelúcia contra o peito.

— Mãe, eu não consigo fechar o olho.

Luísa sentou na beira da cama. A luz do abajur desenhava sombra no rosto dele.

— Por quê?

— Quando eu fecho, eu penso na Dona Marta.

— O que você pensa?

— Se ela tá bem lá no céu.

A voz dele era baixa. Luísa segurou a mão dele.

— Tá sim.

— Como você sabe?

— Porque ela era uma pessoa boa. Pessoas boas ficam bem.

— E quem não é bom?

— Vai ficar bem também. De outro jeito.

Miguel apertou o urso.

— Ela tá sozinha lá?

— Não. Tem outras pessoas que já foram.

— Quem?

— Meu pai. — A voz de Luísa falhou um pouco. Ela pigarreou. — Seu avô que você não conheceu.

— Ele era bom?

— Era.

— Ele tá com a Dona Marta?

— Se eles se encontraram, devem estar conversando sobre plantas.

Miguel sorriu no escuro.

— Ela gostava de planta.

— Gostava muito.

— Mãe.

— Fala.

— Amanhã eu quero regar as plantas dela.

Luísa apertou a mão dele.

— A gente vai junto.

— Pode ser de manhã?

— Pode.

Miguel fechou os olhos. O urso ainda apertado contra o peito. A respiração foi ficando devagar.

Luísa ficou sentada. O silêncio do quarto, o barulho da rua lá fora, a respiração do filho.

Quando ele dormiu, ela levantou devagar. Apagou o abajur. Fechou a porta com cuidado.

Na sala, Carlos estava no sofá.

— Dormiu?

— Dormiu.

— Perguntou da Dona Marta de novo?

— Perguntou. — Ela sentou ao lado dele. — Perguntou se ela tá sozinha.

— E o que você disse?

— Que ela encontrou meu pai.

Carlos olhou pra ela.

— Você nunca fala dele.

— Não falo. — Ela encostou a cabeça no ombro dele. — Mas hoje precisava.

Ele passou o braço em volta dela. O silêncio da sala. O barulho do Toby bebendo água na cozinha.

— A gente tá ensinando ele a lidar com perda — Carlos disse.

— E a gente também.

*Continua em: livreto-148.md — Carlos — Chegada de novo bebê na família*