O portão de casa rangeu quando Carlos abriu. O sol da tarde batia nas folhas da árvore da calçada, desenhando sombra no chão. Ele subiu os degraus devagar.
Na sala, o Miguel brincava com os carrinhos no tapete. A Luísa mexia no celular na poltrona.
— Oi, pai. — Miguel nem levantou a cabeça.
— Oi, filho.
Carlos largou a mochila no sofá. Sentou no chão perto do carrinho vermelho.
— O que cê tá construindo?
— Uma cidade. — Miguel empurrou o carrinho. — Esse é o caminhão do lixo.
— Tá bonita.
Miguel parou de brincar. Olhou pra ele.
— Pai, a Dona Marta morreu?
A pergunta veio sem aviso. Carlos piscou.
— Quem te falou isso?
— A vó Lúcia. Falou que ela foi pro céu.
— Falou.
— Por quê?
Carlos apoiou as mãos nos joelhos. Sentiu a textura do jeans.
— Porque o corpo dela ficou velhinho e parou de funcionar.
— Ela não quis ficar?
— Não é questão de querer. — Carlos pausou. — O corpo dela cansou. Todos os corpos cansam um dia.
Miguel pegou outro carrinho. Um azul.
— E a gente também?
— Um dia. Mas falta muito tempo.
— Muito?
— Muito mesmo.
Miguel ficou em silêncio. Empurrou o caminhão azul contra o vermelho.
— Ela não vai mais regar as plantas?
— Não. — Carlos engoliu. — Mas as plantas dela vão ficar com a gente. A vó Lúcia vai cuidar.
— E o gato dela?
— O gato já foi morar com o Seu Jorge.
— O Seu Jorge gosta de gato?
— Tá aprendendo.
Miguel riu. Foi um riso pequeno, de criança que não entendeu direito.
— Pai.
— Fala.
— Eu posso ficar triste?
Carlos sentiu o peito apertar. Passou a mão no cabelo do menino.
— Pode. Ficar triste é normal.
— Por quanto tempo?
— O tempo que precisar.
— Até eu esquecer ela?
— Não. Até você lembrar dela sem doer tanto.
Miguel encostou a cabeça no ombro do pai. O sol da tarde tinha mudado de lugar no chão.
Carlos sentiu o peso daquela cabeça pequena. Lembrou da Dona Marta regando as plantas na sacada, acenando quando ele passava. Ia sentir falta também.
— Pai.
— Fala.
— Ela tá olhando a gente daqui?
Carlos olhou pro teto. Depois pro filho.
— Se ela tiver, deve estar orgulhosa.
— De quê?
— Da cidade que você construiu.
Miguel sorriu. Pegou o carrinho vermelho de novo.
*Continua em: livreto-147.md — Luísa — Ajudar criança a lidar com morte*