Como lidar com parentes que bebem demais em confraternizações?

Carlos

A ceia de Natal na casa da Dona Lúcia era sempre a mesma: peru, farofa, arroz com passas, e o tio Paulo bebendo desde o meio da tarde.

Às onze da noite, ele já estava na terceira garrafa de vinho. A voz mais alta. Os gestos mais largos. O braço no ombro de todo mundo.

— Vem cá, Miguel! Vem ver o que o tio trouxe!

O tio puxou um brinquedo da sacola. Era um carrinho de controle remoto. Mas ele mal conseguia segurar o controle.

— Tio Paulo, deixa que eu ajudo — Carlos disse, se aproximando.

— Não precisa, não! Eu sei fazer!

O carrinho bateu na parede. O Miguel deu um passo pra trás.

— Tio Paulo, o Miguel já tá com sono. Vou levar ele.

— Já? Ainda é cedo!

— Foram dias corridos. — Carlos colocou a mão no ombro do menino. — Vamos, Miguel.

No quarto, enquanto colocava o pijama no filho, Carlos ouvia a voz do tio Paulo na sala. Contando a mesma história pela quarta vez.

Luísa entrou.

— Tudo bem?

— Tudo. — Ele fechou o botão do pijama. — Só não quero que o Miguel veja o tio Paulo assim.

— Bêbado?

— É.

Luísa sentou na cama.

— O que você vai fazer?

— Não sei. Meu pai nunca fez nada. Deixava o Paulo beber e no dia seguinte todo mundo agia como se nada tivesse acontecido.

— E você quer fazer diferente?

— Quero. Mas não quero estragar o Natal.

— Tem diferença entre estragar e proteger.

Carlos ajeitou o cobertor no Miguel.

— Se eu falar alguma coisa, minha mãe vai achar que tô julgando.

— E você tá?

— Talvez.

— Então?

— Então é isso. Julgar não é errado quando o comportamento é prejudicial.

— Fala isso pra ela.

— Agora?

— Amanhã. Quando todo mundo estiver sóbrio.

— E hoje?

— Hoje você tira o Miguel do caminho. Amanhã conversa.

Carlos beijou a testa do Miguel. Ele já dormia.

Na sala, o tio Paulo tinha passado do vinho pra cerveja. O Beto tentava desviar o assunto. A Clarinha fingia que não via.

Carlos sentou perto da mãe.

— Mãe, o tio Paulo bebeu demais.

— Eu sei.

— A senhora vai falar com ele?

— Amanhã.

— Promete?

— Prometo.

— Porque se não for a senhora, vou ser eu.

Dona Lúcia olhou pra ele.

— Você mudou.

— Mudei.

— Desde que o Miguel nasceu.

— É.

— Tá certo.

No dia seguinte, o tio Paulo acordou tarde. A mesa do almoço estava posta. Ninguém mencionou a noite anterior.

Mas na hora do café, Dona Lúcia sentou com ele na cozinha. Carlos ouviu pedaços da conversa: *"...preocupa a gente"... "...não é Assim que a gente quer lembrar de você"...*

O tio Paulo saiu da cozinha mais cedo. Calado. Olhou pro chão enquanto calçava os sapatos.

— Até o ano que vem, Paulo — Dona Lúcia disse.

Ele acenou. Saiu.

— Resolveu? — Luísa perguntou, baixinho.

— Não sei.

— Pelo menos falou.

— Acho que é o que importa.

*Continua em: livreto-145.md — Luísa — Crianças bagunceiras em reuniões*