A Dona Margô veio passar o fim de semana. Trouxe bolo de fubá, pão de queijo congelado e uma pergunta que Luísa já esperava.
— E então, filha, quando vem o segundo?
Luísa segurou a xícara de café. — Mãe.
— O quê? O Miguel já tem três anos. É uma boa idade pra dar um irmãozinho.
— Ainda não estamos planejando.
— Por quê?
A pergunta veio simples, sem maldade. Mas pesou.
— Por várias razões.
— Conta uma.
Luísa colocou a xícara na mesa.
— A criação do Miguel já demanda muito. Financeiro, emocional, tempo. A gente quer dar o melhor possível pra ele. Se outro vier agora, a gente divide.
— Dividir é bom. Ensina a compartilhar.
— Também ensina a competir por atenção.
Dona Margô ficou em silêncio.
— Você parece segura.
— Tô.
— Não parece arrependida.
— Não tô.
— Então tá bom.
Luísa levantou a sobrancelha.
— É só isso?
— O que mais você quer?
— Que você entenda.
— Eu entendo. — Dona Margô cortou um pedaço de bolo. — Só queria mais netos. Mas se vocês decidiram que não é hora, não é hora.
— E o pessoal do grupo da família?
— O que tem?
— Eles vão perguntar.
— Deixa eles perguntarem.
— Eles vão achar que tem problema.
— Problema tem quem cria filho sem querer.
Luísa riu.
— Você mudou, mãe.
— Mudei não. — Dona Margô lambeu o dedo. — Só aprendi que palpitar na vida dos outros afasta. Prefiro ter filha perto do que razão longe.
— Você levou tempo pra aprender.
— Levei. Mas aprendi.
Naquela noite, Luísa contou pra Carlos.
— Sua mãe perguntou do segundo filho?
— Perguntou.
— E aí?
— Eu falei que não é hora. Ela aceitou.
— Foi fácil?
— Foi. — Ela deitou a cabeça no travesseiro. — Mas eu treinei essa conversa a vida inteira.
— Treinou?
— Desde pequena, minha mãe falava sobre netos. Eu sempre respondia que não era obrigação.
— E ela?
— Insistia. Até um dia que eu falei: "Mãe, se eu tiver filho, vai ser porque eu quero. Não porque você quer."
— Doeu?
— Doeu. Mas funcionou.
Carlos virou de lado.
— A Clarinha nunca pergunta disso.
— Porque você falou que não era da conta dela.
— Falei.
— E funcionou.
— Foi parecido.
Luísa apagou o abajur.
— Talvez o segredo seja falar. Não evitar.
— Talvez.
— As pessoas só param de perguntar quando a resposta é clara.
— Ou quando a gente fala grosso.
— Ou isso.
No escuro, ela sentiu a mão dele procurando a dela. Segurou.
*Continua em: livreto-144.md — Carlos — Parentes que bebem demais no Natal*