O almoço de domingo na casa da Dona Lúcia estava tranquilo até a Clarinha abrir a boca.
— Você vai deixar ele comer isso?
Carlos olhou pro prato do Miguel. Arroz, feijão, frango desfiado, pedaços de cenoura cozida.
— O que tem?
— Processado. — Clarinha apontou pro frango. — Essas coisas têm hormônio.
— É frango, Clarinha.
— Você devia dar comida orgânica. Sabia que tem entrega em casa?
— Sabia.
— E por que não compra?
— Porque é caro.
— A saúde do seu filho não tem preço.
A frase foi dita com um sorriso. Mas o sorriso não disfarçou.
Carlos sentiu o calor subir.
— Clarinha — Dona Lúcia interveio — deixa o menino comer.
— Tô só dando uma sugestão.
— Obrigado pela sugestão — Carlos disse. — A gente vai avaliar.
Clarinha não percebeu o tom. Ou percebeu e ignorou.
— Outra coisa: vocês já pensaram em tirar a chupeta? O Miguel já tem idade.
— O pediatra disse que até dois anos é tranquilo.
— Eu li que depois de dezoito meses atrapalha o desenvolvimento da fala.
— A Clarinha tem um filho — Luísa disse, do outro lado da mesa. Ela colocou o garfo com calma. — Quantos anos ele tem?
— Não tenho filhos.
— Ah. — Luísa tomou um gole d'água. — Então.
O silêncio durou três segundos.
Beto tossiu. Dona Lúcia se levantou pra buscar mais arroz. Carlos segurou a risada, disfarçando com o guardanapo.
Clarinha mudou de assunto.
No caminho de volta pra casa, Luísa vinha quieta.
— Você não falou nada — ela disse.
— Falei.
— Disse "obrigado pela sugestão". Isso não é falar.
— O que eu devia ter dito?
— "Clarinha, a criação do Miguel é nossa. Agradeço a preocupação, mas a decisão é nossa."
— Parece grosseiro.
— Parece limite.
Carlos dirigiu em silêncio.
— Ela é minha irmã. Não quero brigar.
— Não precisa brigar. Precisa demarcar.
— Como?
— Com educação. Mas com firmeza. Toda vez que você aceita calado, ela entende que pode opinar.
— E se ela ficar ofendida?
— Aí é problema dela.
Carlos parou no sinal.
— Sua mãe nunca se intromete.
— Minha mãe aprendeu que se intrometer afasta.
— Como você ensinou isso?
— Falei. — Luísa virou o rosto pra ele. — Uma vez. Educadamente. Ela entendeu.
— E se não tivesse entendido?
— Eu repetiria.
O sinal abriu. Carlos acelerou.
— Na próxima — ele disse — eu falo.
— Na próxima você fala.
— Prometo.
— Não precisa prometer. Só tentar.
— Vou tentar.
— Já é mais que ontem.
Duas semanas depois, num outro almoço, a Clarinha começou de novo: *"Vocês já pensaram em escola particular?"*
Carlos respirou.
— Clarinha, a gente agradece a preocupação. Mas as decisões sobre o Miguel são nossas.
Ela piscou.
— Tô só ajudando.
— Ajuda é bem-vinda. Opinião não solicitada, não.
Dona Lúcia serviu mais arroz. A conversa virou pro tempo.
*Continua em: livreto-143.md — Luísa — Pressão da família para ter filhos (adaptado)*