A casa ficou mais silenciosa depois que o Pedro foi morar com a Júlia.
Luísa sentia mais do que esperava. O silêncio na hora do jantar. A cadeira vazia na mesa. O Toby que às vezes ia até o quarto dele e voltava, a cauda baixa.
— Tá sentindo falta? — Carlos perguntou numa noite, os dois na sala.
— Muita.
— Ele vem no sábado.
— Eu sei.
— Não adianta?
— Não adianta.
Carlos apoiou o pé no sofá.
— Você quer ligar pra ele?
— Agora?
— Agora.
— É tarde.
— São nove e meia.
— E se ele estiver ocupado?
— Ele atende.
Luísa pegou o celular. O dedo pairou sobre o nome do Pedro.
— Não quero ser a mãe que sufoca.
— Ligar não é sufocar.
— Se eu ligar toda noite, é.
— Então não liga toda noite.
Ela colocou o celular no colo.
— Minha mãe ligava toda noite quando eu mudei de cidade. No começo eu achava chato. Depois comecei a esperar.
— E se você não tivesse atendido?
— Ela não dormia.
— Então?
— Então a ligação não era pra mim. Era pra ela.
Carlos ficou em silêncio.
— Talvez — ele disse — você precise de uma ligação que é pra você.
— Como assim?
— Combinar um dia fixo. Uma vez por semana. Sem culpa. Sem ansiedade.
— E nos outros dias?
— Ele mora a vinte minutos daqui. Não é outro país.
— Parece.
— Porque você não tá acostumada.
Luísa ficou pensando.
— Segunda à noite?
— Pode ser.
— E se ele não puder?
— Você remarca.
— E se ele esquecer?
— Você lembra.
— Parece simples.
— É simples. Difícil é a distância.
Ela pegou o celular de novo. Mandou uma mensagem: *"Segunda à noite posso ligar? Quero marcar um dia fixo."*
A resposta veio rápido: *"Claro. Segunda é bom. Sete?"*
*"Sete."*
Ela guardou o celular. O peito mais leve.
— Resolveu? — Carlos perguntou.
— Por enquanto.
— E no sábado?
— O quê?
— Ele vem jantar.
— Vem.
— Então você tem três dias de saudade e depois ele tá aqui.
Luísa sorriu.
— Você conta.
— É matemática.
— É cuidado.
*Continua em: livreto-142.md — Carlos — Tia que se intromete na criação*