Como apoiar um filho que vai casar?

Carlos

A notícia chegou num sábado à tarde. Pedro chegou em casa com a mochila, largou na entrada e sentou no sofá com uma expressão diferente. Séria. Mas não pesada.

— Pai, preciso falar uma coisa.

Carlos desligou a TV.

— Fala.

— Eu e a Júlia estamos pensando em casar.

O tempo parou.

Carlos piscou.

— Quantos anos você tem?

— Vinte e três.

— Vinte e três.

— É.

Carlos lembrou do Pedro com oito anos, correndo atrás do Toby no parque. Com doze, aprendendo a andar de bicicleta. Agora, na frente dele, um homem.

— Por que você quer casar?

— Porque quero construir uma vida com ela.

— Você ama ela?

— Amo.

— Sabe o que significa casar?

— Sei.

— O que?

Pedro pensou.

— É prometer que, mesmo nos dias difíceis, a gente vai estar junto. Que a gente escolheu um ao outro, e que essa escolha vale mais que qualquer problema.

Carlos respirou.

— Quem te ensinou isso?

— Você e a Luísa.

Carlos sentiu um aperto na garganta.

— Já pensaram em onde vão morar?

— No apê dela. É pequeno, mas cabe.

— E dinheiro?

— A gente tem economizado.

— E o que vocês dois fazem?

— Ela tá no último ano de Direito. Eu tô no estágio de design. A Luísa me recomendou.

Carlos balançou a cabeça devagar.

— Você parece tranquilo.

— Tô.

— Por quê?

— Porque a gente conversou sobre tudo. Moradia, dinheiro, filhos, futuro.

— Até sobre filhos?

— Conversamos. Daqui a alguns anos. Não agora.

Carlos inclinou o corpo pra frente.

— Pedro.

— Fala.

— Você sabe que eu vou apoiar.

— Sei.

— Mas quero que saiba que não precisa casar agora se não for a hora certa.

— É a hora certa.

— E se não for?

— Aí a gente descobre juntos e ajusta. — Ele sorriu. — Nem todo erro é tragédia, pai. Você me ensinou.

Carlos riu. Levantou. Abraçou o filho. O abraço durou mais que o normal.

— Traz ela pra jantar sábado.

— Vou trazer.

— E avisa a sua avó antes de mim. Se ela souber que eu soube primeiro, nunca mais me perdoa.

Pedro riu.

— Combinado.

Quando ele saiu, Carlos sentou de novo. A TV ainda desligada. O barulho da rua entrando pela janela.

Luísa apareceu na porta.

— Ouvi tudo.

— Tá ouvindo sempre.

— Tô. — Ela sorriu. — Ele cresceu.

— Cresceu.

— Você fez bem.

— Ainda não sei.

— Sabia.

*Continua em: livreto-141.md — Luísa — Distância dos filhos que moram fora*