O Pedro chegou na sala com o caderno de orientação vocacional. A cara fechada de quem tinha descoberto que o futuro não vinha com manual.
— A professora pediu pra gente pesquisar três profissões até sexta.
— E você pesquisou? — Luísa perguntou do sofá.
— Tentei. — Ele jogou o caderno na mesa. — Mas tudo que eu leio parece chato.
— Me mostra.
Pedro abriu o caderno. Na primeira página, uma lista de profissões rabiscadas. Médico (riscado). Advogado (riscado). Engenheiro (riscado).
— Você riscou todas.
— Porque não sei o que quero.
— E se você pensar pelo que você gosta?
— Gosto de ficar em casa.
— Fora isso.
— Gosto de jogar.
— Jogar o quê?
— Videogame. — Ele baixou a cabeça, como se esperasse bronca.
— E o que você gosta no videogame?
— A história. O visual. Como cada fase é diferente.
— Isso é design de jogos.
Ele levantou a cabeça.
— Existe?
— Existe. É carreira. Mas não é fácil.
— Como funciona?
— Você cria personagens, cenários, mecânicas. Precisa saber desenhar ou programar.
— Os dois?
— Ou um dos dois. — Luísa fechou o caderno dele. — Mas você não precisa decidir agora.
— Preciso. A professora disse que se eu não escolher, fico sem direção.
— Direção não vem de uma escolha. Vem de tentar coisas.
Pedro franziu a testa.
— O que você quer dizer?
— Em vez de pesquisar profissões no Google, testa. Pega um software de edição. Faz um curso online grátis de design. Vê se você gosta de passar horas nisso.
— E se eu não gostar?
— Tenta outra coisa.
— Pra sempre?
— Até achar. — Luísa inclinou o corpo. — Escolha profissional não é casamento. Você pode mudar.
— Minha mãe fala que se eu errar na escolha, perco tempo.
— Sua mãe quer te proteger do erro. Mas erro também ensina.
Pedro ficou em silêncio.
— Você pode testar design no meu notebook — Luísa ofereceu. — Tem uns softwares lá. Se não gostar, a gente pensa em outra.
— Pode ser.
Ele pegou o caderno. Foi pro escritório. Vinte minutos depois, Luísa foi ver. Ele estava no Photoshop, tentando desenhar um personagem. O resultado era ruim. Mas ele não tinha desistido.
— Tá difícil?
— Tá.
— Mas você ainda tá tentando.
— É.
— Esse é o sinal.
— Sinal de quê?
— Que você pode gostar.
*Continua em: livreto-140.md — Carlos — Apoiar filho que vai casar*