Como lidar com filho adulto que mora em casa?

Carlos

Carlos chegou do trabalho e encontrou a sala silenciosa. O Miguel dormia. O Toby dormia. A Raquel já tinha ido embora.

Luísa estava na mesa da cozinha com o notebook aberto, mas o olhar perdido na janela.

— Problema? — Carlos perguntou, pendurando a mochila.

— Minha mãe ligou.

— Tudo bem?

— Tudo. — Ela virou o notebook. — Ela contou que o filho da vizinha, o Lucas, tem trinta e dois anos e ainda mora com os pais.

— E qual o problema?

— Não tem. Ela só comentou. Mas depois fiquei pensando.

— Pensando no quê?

— No Pedro.

Carlos parou de desabotoar a camisa.

— Ele tem quatorze.

— Eu sei. Mas e quando ele tiver trinta?

— Falta muito.

— Falta. Mas a gente já pode começar a pensar.

Carlos sentou. — Você tá preocupada com o Pedro ficar em casa pra sempre?

— Não. — Ela fechou o notebook. — Tô pensando em como a gente prepara ele pra sair.

— Ele já faz as coisas em casa. Ajuda com o Miguel. Lava a louça dele.

— Isso é convivência. Não é preparação.

— O que é preparação?

— É ensinar ele a pagar uma conta. Fazer uma compra. Morar sozinho sem passar fome.

Carlos apoiou o braço na mesa.

— Acha que meu pai me ensinou isso?

— Não sei. Ensinou?

— Não. — Ele riu sem graça. — Quando saí de casa, passei dois meses comendo miojo porque não sabia cozinhar arroz.

— Exato.

— Mas eu aprendi.

— Na marra.

— É.

Luísa pegou a mão dele.

— A gente pode fazer diferente. Não precisa ser na marra.

— Como?

— Incluir o Pedro nas decisões. Mostrar o orçamento. Deixar ele escolher um item do mercado e calcular o troco. Coisas pequenas.

— Ele vai reclamar.

— Vai. Mas vai aprender.

Carlos olhou pra ela.

— Você pensa longe.

— Alguém precisa. — Ela sorriu. — Senão a gente só reage quando o problema aparece.

— E o Lucas, da vizinha?

— O que tem?

— Talvez os pais nunca tenham ensinado ele a sair.

— Pois é.

— Então a gente ensina.

O Miguel acordou. O choro veio fino do quarto. Luísa levantou.

— Vou pegar.

— Deixa que eu vou. — Carlos se levantou primeiro. — Você pensa melhor sentada.

Ela riu.

No caminho pro quarto, Carlos pensou no Pedro. No quarto vazio nos fins de semana que ele passava com a mãe. Na mochila sempre pronta perto da porta.

O menino ainda morava ali. Mas um dia não ia morar. E o Carlos queria que ele estivesse pronto.

*Continua em: livreto-139.md — Luísa — Ajudar a escolher profissão*