O Miguel ficou doente na quarta-feira. Febre de quarenta graus, o corpinho vermelho, os olhos vidrados.
Luísa passou a noite acordada. O termômetro na mão. O paninho na testa dele. Cada vez que a respiração do menino mudava de ritmo, o coração dela parava um segundo.
— Vai ficar bem — Carlos disse, no meio da madrugada.
— Você não sabe.
— O pediatra disse que é viral.
— Eu sei.
— Então por que você não consegue descansar?
Luísa não respondeu. O Miguel gemeu no sono. Ela colocou a mão no peito dele. Senti o coração batendo. Rápido, mas firme.
— Lembra quando ele nasceu? — ela perguntou.
— Lembro.
— Na primeira noite, na maternidade, eu não dormi. Fiquei olhando ele respirar.
— Você me contou.
— Eu tinha medo de fechar os olhos e ele parar.
— Você falou com a psicóloga.
— Falei. Ela disse que era normal. Que toda mãe sente isso.
— E passou?
— Passou. — Luísa apertou a barra da camiseta. — Até a primeira febre.
— Agora voltou?
— Agora voltou.
Carlos sentou na beira da cama. Colocou a mão nas costas dela.
— O que você precisa?
— Não sei. — Ela fungou. — Um botão de desligar o medo.
— Não tenho.
— Eu sei.
— Mas posso ficar acordado com você.
Ela apoiou a cabeça no ombro dele. Ficaram assim, os dois olhando o Miguel dormir. A respiração do menino enchendo o quarto.
— Você tem medo? — ela perguntou.
— De quê?
— De perder ele.
— Tenho.
— Sempre?
— Sempre que lembro que isso é possível.
— Como você lida?
— Não lido muito bem. — Ele coçou a nuca. — Mas lembro que medo não é premonição.
— O que é?
— Sinal de que a gente ama.
Luísa enxugou o olho na manga.
— É tão forte que dói.
— É.
— Vale a pena?
— O quê?
— Amar assim. Sabendo que pode doer.
Carlos demorou.
— O que você prefere? Amar e ter medo de perder. Ou não amar e não ter medo?
Ela pensou.
— Amar.
— Então.
A febre cedeu na manhã seguinte. O Miguel acordou pedindo mingau. Luísa colocou ele no colo da cadeira da cozinha. Ele comeu tudo.
— Tá melhor? — ela perguntou.
— Tô.
Ela beijou a cabeça dele.
O medo ainda estava ali. Quieto. Esperando. Mas agora ela sabia que era só o preço de amar.
*Continua em: livreto-138.md — Carlos — Filho adulto que mora em casa (reflexão)*