O Miguel apareceu na sala com a fralda na mão.
— Papai, o cocô tá verde.
Carlos tossiu. — Põe a fralda no lixo, Miguel.
— Mas por que tá verde?
— Porque você comeu espinafre ontem.
— E amanhã vai tar vermelho?
— Se você comer beterraba.
O Miguel balançou a cabeça, satisfeito, e foi jogar a fralda no lixo. O assunto tinha acabado pra ele.
Carlos ficou pensando.
— Essa foi fácil — ele murmurou.
— Qual? — Luísa apareceu com o celular na mão.
— Por que o cocô tá verde.
— E você respondeu?
— Respondi.
— Sem constrangimento?
— ...um pouco.
Ela riu.
— Isso é o mais fácil que tem. Pergunta sobre corpo. O difícil é quando eles perguntam sobre sentimento.
— Tipo o quê?
— Tipo mês passado, quando o Miguel perguntou por que você tava triste.
Carlos lembrou. Tinha sido um dia ruim no trabalho. Ele chegou em casa, sentou no sofá, ficou olhando pro nada. O Miguel subiu no colo e perguntou: *"Papai triste?"*
— Eu não soube o que responder — Carlos admitiu.
— O que você disse?
— Que tava cansado.
— E você tava?
— Tava. Mas não era cansaço.
— Era tristeza?
— Frustração.
— Por que você não falou isso?
— Porque achei que ele não ia entender.
Luísa guardou o celular. Sentou no braço do sofá.
— Criança entende mais do que a gente imagina. O problema não é se eles vão entender. É se a gente vai conseguir explicar sem filtro.
— Como você explica morte pra uma criança?
— Depende da idade. Pra criança pequena, você fala que o corpo parou de funcionar. Não usa metáfora — vira confusão.
— E tristeza?
— Fala que tá triste. Ponto. Criança sabe o que é tristeza.
Carlos ficou em silêncio.
— Na próxima, se o Miguel perguntar, eu falo a verdade.
— Tomara que ele pergunte de novo.
— Se não perguntar, eu falo mesmo assim. — Ele riu. — *"Filho, papai teve um dia difícil no trabalho."*
— Ele vai perguntar o que foi.
— Eu vou contar.
— E se não for adequado?
— Aí eu filtro. Mas não escondo o sentimento.
Naquela noite, Carlos colocou o Miguel pra dormir. Na hora de apagar a luz, o menino virou.
— Papai.
— Fala.
— Hoje você não tá triste?
— Hoje eu tô feliz.
— Por quê?
— Porque falei com você agora.
O Miguel sorriu. Fechou os olhos.
Carlos apagou a luz. Ficou um tempo na porta, olhando a silhueta do filho na cama.
*Continua em: livreto-137.md — Luísa — Morte de um filho (reflexão, medo)*