Como estabelecer limites com carinho?

Luísa

A noite tinha sido longa. O Miguel acordou três vezes. Acordou a Luísa, que acordou o Carlos, que acordou o Toby. Quando o sol nasceu, todo mundo estava exausto.

— Café — Luísa murmurou, arrastando os pés até a cozinha.

O Miguel já estava acordado, sentado no tapete da sala, os carrinhos espalhados. Eram seis e vinte.

— Miguel, ainda é cedo. Vamos deixar o papai dormir mais um pouco.

— Não quero.

— Eu sei. Mas a gente precisa.

Ela ligou a cafeteira. O barulho encheu a cozinha. O Miguel se levantou e foi atrás dela.

— Quero pão.

— Pão a gente come daqui a pouco.

— AGORA.

Luísa parou. Respirou. O corpo pedia pra ceder. Ceder era mais fácil. Ceder fazia o silêncio voltar.

Mas ela sabia onde isso levava.

— Miguel, olha pra mim.

Ele não olhou. Ela se abaixou até ficar na altura dele.

— Olha pra mim.

Ele virou. Os olhos ainda inchados de sono.

— Você não vai comer agora. O café ainda não está pronto. Você vai esperar na sala com os carrinhos enquanto a mamãe termina. Pode escolher três carrinhos pra brincar.

— Quatro.

— Três.

Ele franziu o nariz.

— Se você ficar na sala sem chorar, depois do café a gente vê um desenho.

— Do Peppa?

— Do Peppa.

Ele pensou. Depois virou e voltou pros carrinhos. Luísa ouviu ele contar: *Um, doi, três.*

Ela terminou o café em paz.

Quando sentou com a caneca na mesa, Carlos apareceu na porta, os olhos apertados.

— Ele ficou?

— Ficou.

— Como?

— Limite claro. Recompensa na frente. — Ela tomou um gole. — E respiração.

Carlos sentou. — Você não se sente culpada?

— De quê?

— De falar não.

— Antes eu sentia. Achava que negar era machucar.

— E hoje?

— Hoje eu sei que negar também é cuidar.

O Miguel entrou correndo na cozinha, três carrinhos apertados contra o peito.

— Mamãe, o azul caiu.

— A gente pega depois do café.

— Tá.

Ele voltou pra sala.

Carlos olhou pra ela.

— Onde você aprendeu isso?

— Na terapia. Antes do Miguel nascer.

— Funciona sempre?

— Não. — Ela riu. — Mas na maioria das vezes. E nos dias que não funciona, eu tento de novo no dia seguinte.

O café esquentava as mãos dela. Da sala, vinha o barulho dos carrinhos deslizando no chão.

*Continua em: livreto-136.md — Carlos — Conversar com crianças sem constrangimento*