O Miguel derrubou o copo de suco em cima do relatório que Carlos tinha impresso pra entregar no dia seguinte.
O suco se espalhou. O papel absorveu na hora. O relatório virou uma mancha roxa.
— MIGUEL!
A voz saiu antes do pensamento. O menino congelou. Os olhos arregalados. O lábio inferior tremendo.
O choro veio.
Carlos fechou os olhos. Passou a mão no rosto. A nuca queimando.
— Desculpa — ele murmurou. Não sabia se era pro Miguel ou pra si mesmo.
— Oi?
Era a Raquel, na porta da cozinha.
— Você gritou com ele.
— Eu sei.
— Ele não fez por mal.
— Eu sei. — Carlos apoiou as duas mãos na bancada. — Foi instinto.
Raquel pegou o Miguel no colo. O menino ainda soluçava, o rosto enterrado no ombro dela.
— Vou limpar — Carlos disse.
— Não precisa. — Raquel pegou um pano. — A senhora Luísa chega em meia hora, né?
— É.
— A senhora quer que eu fique mais um pouco?
— Não. — Carlos respirou. — Pode ir.
Ela saiu. Carlos ficou sozinho na cozinha. O relatório estragado na bancada. O cheiro de suco de uva.
Ele sentou. Puxou o relatório molhado. Leu o que dava. A maior parte estava ilegível.
Pegou o celular. Mandou mensagem pro chefe: *"Preciso reimprimir um relatório. Entrego amanhã de manhã."*
*"Ok. Atraso?"*
*"Nenhum. Só não consigo entregar hoje."*
*"Tranquilo."*
Carlos largou o celular. Escutou a voz dele ecoando: *"MIGUEL!"* A cara do menino. O medo nos olhos.
Quando Luísa chegou, ele ainda estava na mesa da cozinha. O relatório estragado na frente.
— O que aconteceu? — ela perguntou, pendurando a bolsa.
— Gritei com o Miguel.
Luísa parou.
— Ele derrubou suco no meu relatório. Foi sem querer. Eu gritei.
— E agora?
— Agora eu tô aqui pensando no que eu fiz.
Luísa sentou perto.
— Você não é seu pai.
— Eu sei.
— Seu pai gritava. Você não precisa repetir.
— Eu sei.
— Saber é diferente de conseguir.
Carlos olhou pra ela. Ela não tava julgando. Só constatando.
— Como você faz? — ele perguntou.
— Pra não gritar?
— É.
— Respiro. Conto até três. Penso no que vou dizer antes de dizer.
— Funciona?
— Na maioria das vezes. Quando não funciona, eu peço desculpa depois.
— Pedir desculpa resolve?
— Perdoar resolve. — Ela encostou a mão na dele. — Amanhã ele não vai lembrar do grito. Vai lembrar se você sentar com ele e explicar que foi erro seu.
Carlos ficou em silêncio.
O Miguel apareceu na porta. O cobertor numa mão, o dedo da outra na boca.
— Papai?
— Vem cá.
O menino foi. Subiu no colo dele. Carlos segurou ele perto.
— Foi mal, Miguel. Papai não devia ter gritado.
O Miguel apoiou a cabeça no peito dele.
— Su-co?
— Amanhã a gente toma suco junto. Sem derrubar.
— Tá.
Carlos apertou o abraço. O menino ficou. Respirando no ritmo dele.
*Continua em: livreto-135.md — Luísa — Limites com carinho sem culpa*