Como lidar com birra de criança sem se sentir culpada?

Luísa

O Miguel queria o brinquedo. Não o brinquedo que estava no chão, não o da estante, não o que a Raquel ofereceu. Ele queria o que o Pedro estava segurando.

O Pedro nem viu. Tava no celular.

— Migual! — o menino berrou.

Pedro levantou a cabeça. — O quê?

— Égua! — Miguel apontou pro celular.

— Isso não é brinquedo.

— ÉGUA!

O berro ecoou na sala. O Toby saiu correndo pro quarto.

Luísa largou o caderno. O Miguel já estava vermelho, os punhos fechados, o corpo inteiro tenso. O choro veio logo depois, alto e sem pausa pra respirar.

— Calma, Miguel. — Luísa se aproximou.

Ele chutou o ar. As pernas esticando. A cabeça jogando pra trás.

Luísa sentou no chão perto dele. Não pegou. Só ficou ao lado.

— Você tá bravo porque queria o celular e não pode ter.

O choro continuou.

— Pode ficar bravo. Mas não pode chutar.

O Miguel virou o rosto. Bateu a mão no chão.

Pedro olhava da mesa.

— Ele sempre fica assim?

— Quando não consegue o que quer. — Luísa manteve a voz baixa. — É normal.

— Você não vai fazer nada?

— Já fiz. — Ela apontou pra situação. — Eu falei que entendi. Falei o que não pode. E tô esperando.

— Esperando o quê?

— Ele se acalmar.

O choro foi perdendo força. Em dois minutos, virou soluço. Em três, o Miguel estendeu os braços.

Luísa pegou ele. A cabeça dele afundou no ombro dela.

— Passou — ela disse.

O Miguel fungou. — Água.

— Vou pegar.

Ela levantou com ele no colo. Foi até a cozinha, preparou a água no copinho dele. Ele bebeu devagar.

Quando terminou, apontou pro chão. Queria descer.

Luísa colocou ele. O Miguel foi direto pros carrinhos, como se nada tivesse acontecido.

— É sempre assim? — Pedro perguntou.

— Na maioria das vezes. — Luísa voltou pro caderno. — Birra é emoção que transborda. Não cabe na criança. Precisa sair. Depois que sai, passa.

— E você não fica cansada?

— Fico. Mas não culpada.

— Por quê?

— Porque birra não é erro meu. É desenvolvimento. A criança precisa aprender a lidar com a frustração. Minha função não é evitar a frustração. É estar ali enquanto ele aprende.

Pedro olhou pro Miguel, que empilhava carrinhos.

— Você lida bem com isso.

— Treino. — Luísa sorriu. — Muito treino.

— Acho que meu pai não sabia lidar com birra.

Luísa parou de escrever.

— Como era?

— Ele gritava. Ou me dava o que eu queria. Qualquer coisa pra parar.

— E o que você aprendeu?

— Que se eu chorasse alto o suficiente, conseguia.

Ela guardou o caderno.

— Então vamos fazer diferente com o Miguel?

Pedro pensou. Depois concordou com a cabeça.

— Vamos.

*Continua em: livreto-134.md — Carlos — Educar sem gritar sem culpa*