Como conversar sobre sexo com os filhos sem vergonha?

Carlos

Carlos estava enxugando a louça quando Pedro chegou na cozinha com o celular na mão.

— Pai.

— Hm.

— O que é uma ereção?

O prato escorregou da mão do Carlos. Ele segurou no ar antes de cair.

— Por que você tá perguntando?

— Biologia. A professora pediu pra pesquisar. — Pedro mostrou a tela. — Mas o texto do livro é estranho.

Carlos largou o pano. Enxugou as mãos na calça. O coração batendo mais rápido.

— Senta.

Pedro sentou na mesa. Carlos sentou também.

— Você quer saber o que acontece no corpo?

— Acho que sim.

Carlos respirou. A nuca coçou. Ele pensou no próprio pai, que nunca tinha sentado pra conversar sobre nada disso. A única coisa que seu Antônio disse foi: *"Não faz besteira."*

— Toda vez que o homem fica excitado — Carlos começou — o sangue flui mais para o pênis. Isso faz ele inchar e endurecer. É uma reação natural do corpo.

— Acontece sem a pessoa querer?

— Acontece. De manhã, durante o sono, às vezes do nada. É normal.

Pedro anotou alguma coisa no celular.

— E mulher?

— O que você quer saber?

— Ela também fica excitada?

— Sim. O corpo dela também reage. A vagina fica lubrificada, os seios ficam mais sensíveis. É o preparo do corpo.

— Pra quê?

— Pra relação sexual.

Pedro guardou o celular.

— A professora disse que a gente precisa saber antes de sentir vergonha. Que vergonha atrapalha.

— Ela tá certa.

— Mas você tá com vergonha.

Carlos riu. — Tô.

— Por quê?

— Porque meu pai nunca conversou comigo sobre isso. Eu aprendi sozinho, na internet, com amigos. Aprendi errado várias vezes.

— Errado como?

— Que sexo é sujo. Que menino não chora. Que homem tem que saber tudo. — Carlos apoiou o braço na mesa. — Coisas que não são verdade.

Pedro ficou em silêncio.

— Pode perguntar mais? — Carlos ofereceu.

— Posso?

— Pode. Hoje, amanhã, no ano que vem. Sempre que precisar.

— O que é camisinha?

Carlos explicou. Depoi veio a pergunta sobre métodos anticoncepcionais. E sobre o que fazer se a camisinha estourar. E sobre consentimento.

Carlos respondeu cada uma. Na terceira pergunta, a vergonha foi sumindo.

— Você já fez sexo? — Pedro perguntou.

— Já.

— Com a Luísa?

— Ela é minha companheira. — Carlos inclinou a cabeça. — Mas isso não significa que você precisa saber os detalhes.

— A Luísa me ensinou que intimidade é privada.

— Ela tá certa.

Pedro levantou. Antes de sair, virou.

— Obrigado.

— De nada.

— Foi menos estranho do que eu pensei.

Carlos sorriu.

— Pra mim também.

Quando Pedro saiu, Carlos ficou sentado na mesa. Os dedos tamborilando na madeira. Ele pegou o celular e mandou mensagem pra Luísa: *"Conversei com o Pedro sobre sexo."*

A resposta veio segundos depois: *"Sobreviveu?"*

* — Quase.*

*Continua em: livreto-133.md — Luísa — Birra de criança sem culpa*