A moça chegou às nove e dez. Luísa viu pelo olho mágico: cabelo preso, mochila no ombro, uma expressão tranquila.
Ela abriu a porta.
— Dona Luísa? Sou a Raquel.
— Pode entrar.
Raquel entrou. Olhou em volta sem pressa. Não varreu a sala com os olhos como as outras candidatas — ela observou um detalhe de cada vez. O berço no canto. O tapete de atividades. O Toby, que veio cheirar o pé dela.
— Ele é manso? — Raquel perguntou, se abaixando pra fazer carinho.
— Muito.
Raquel acariciou a orelha do Toby. Depois levantou e lavou as mãos na pia da cozinha, sem perguntar onde era.
— Posso ver o bebê?
Luísa conduziu até o quarto. O Miguel estava acordado, de bruços no trocador, as perninhas mexendo no ar.
Raquel não estendeu a mão na hora. Ficou a um metro de distância, observando. Esperou o Miguel notar a presença dela. Quando ele virou a cabeça e arregalou os olhos, ela sorriu.
— Oi, Miguel.
A voz dela saiu suave. O Miguel mexeu os braços.
— Pode pegar — Luísa disse.
Raquel apoiou uma mão nas costas dele, a outra embaixo da nuca. Levantou com cuidado. O Miguel não chorou.
— Ele é pesadinho — Raquel comentou. — Tá bem alimentado.
Ela ficou um minuto inteiro só segurando o bebê. Depois colocou ele de volta no trocador.
— Quantas horas por dia a senhora precisa?
— Sete. Das nove às quatro. Às vezes preciso ficar até mais tarde, depende do projeto.
— E os dias?
— Segunda a sexta.
— Combinamos valor fixo. Se passar do horário, hora extra combinada antes.
Luísa concordou com a cabeça.
— Você tem referências?
Raquel já estava tirando uma pasta da mochila. Três cartas. Duas de famílias anteriores, uma de uma escola de educação infantil onde trabalhou como auxiliar.
Luísa leu cada uma. A última carta dizia: *"A Raquel cuidou da nossa filha dos 4 meses aos 2 anos. Saímos da cidade, senão ela estaria conosco até hoje."*
— Por que você saiu do último trabalho?
— A família se mudou. — Raquel guardou a pasta. — Foi bom enquanto durou. Acompanhei os primeiros passos, as primeiras palavras.
Luísa observou o olhar dela quando falou disso. Não era saudade encenada — era um brilho genuíno.
— Tem alguma pergunta pra mim? — Luísa ofereceu.
— Sim. Qual a rotina dele? Como ele dorme? O que ele come? Como a senhora quer que eu lide se ele chorar muito?
Luísa respondeu cada pergunta. No final, Raquel anotou a rotina num caderninho pequeno.
— Amanhã eu começo, se a senhora quiser.
— Pode ser. Mas hoje você fica uma hora com ele. Eu fico na sala. Só pra ver como vocês se entendem.
Raquel aceitou.
Uma hora depois, o Miguel estava dormindo no colo dela, e Raquel cantava baixinho uma música que Luísa não conhecia.
Luísa foi pra cozinha. Escreveu no grupo da família: *"Achei a babá."*
*Continua em: livreto-132.md — Carlos — Conversar sobre sexo sem vergonha*