O Toby latiu uma vez só. Carlos levantou a cabeça do notebook e estranhou — o cachorro só latia quando alguém chegava perto da porta.
Ele foi até a sala. Pedro estava sentado no sofá, a mochila no colo, o ombro direito um pouco mais baixo que o esquerdo.
— Chegou cedo — Carlos disse.
— Saí mais cedo.
A voz do menino vinha diferente. Mais baixa. Carlos sentou na poltrona em frente.
— O que aconteceu?
Pedro demorou. Olhou pro chão. Depois levantou a manga da camiseta.
O braço dele tinha um hematoma roxo do tamanho de uma moeda grande, perto do cotovelo.
— O Marcos.
— Na escola?
— No intervalo.
Carlos sentiu o peito apertar. — O que ele fez?
— Me empurrou. Começou a me chamar de nomes. Eu falei pra ele parar. Ele não parou. Aí eu empurrei de volta.
— E aí?
— O inspetor viu. A gente foi pra coordenação. Os dois.
Carlos respirou fundo. — E o que a coordenação fez?
— Chamou os pais. Advertência. — Pedro encolheu o ombro. — Amanhã vai ser pior.
— Por quê?
— Porque agora ele sabe que eu revido.
Carlos ficou em silêncio. A mão dele foi pra nuca, coçando devagar.
— Você quer saber o que fazer se acontecer de novo — ele disse.
— Quero.
— A resposta certa depende do que você quer evitar.
— O quê?
Carlos inclinou o corpo pra frente, os cotovelos nos joelhos.
— Se você revidar, pode parar na diretoria de novo. Pode levar suspensão. Pode virar o agressor na versão deles.
— Então eu deixo ele me bater?
— Não. — Carlos balançou a cabeça. — Não é sobre deixar. É sobre escolher a melhor defesa pra cada situação.
Ele levantou.
— Vem cá.
Pedro seguiu ele até o quarto. Carlos abriu o guarda-roupa, tirou uma caixa de papelão do fundo. Dentro tinha um certificado velho, de quando ele fez aulas de defesa pessoal aos dezenove anos.
— Seu avô me colocou no jiu-jítsu quando eu tinha a sua idade — Carlos disse. — Não porque eu brigava. Porque eu não sabia me defender.
— Funcionou?
— Nunca mais precisei brigar. — Carlos sentou na cama. — Quanto mais você sabe se defender, menos você precisa usar.
— Então você acha que eu faço aula?
— Eu acho que você precisa de três coisas. A primeira: saber que não é errado se defender. A segunda: aprender a fazer isso sem transformar em briga. A terceira: ter um adulto de confiança pra contar quando acontecer.
Pedro apoiou o braço no joelho. O hematoma apareceu na luz do quarto.
— E amanhã?
— Amanhã você evita ele. Se ele vier, você fala uma vez: "Não chega perto." Se ele continuar, você vai direto pro professor. Antes de qualquer coisa.
— E se ele bater primeiro?
— Você se protege. — Carlos segurou o ombro dele. — Braço na frente do rosto, grito bem alto. Depois corre e conta. Não revida.
— Parece medo.
— Parece estratégia. — Carlos apertou de leve o ombro dele. — Tem diferença.
Na manhã seguinte, Carlos deixou Pedro na escola. Antes de descer do carro, o menino virou.
— Pai.
— Fala.
— Se eu fizer aula mesmo, você faz comigo?
Carlos sorriu.
— Fechado.
Pedro desceu. A mochila nas costas. O passo um pouco mais firme que no dia anterior.
*Continua em: livreto-131.md — Luísa — Creche pet (babá para o bebê)*