O Pedro chegou da escola diferente. A mochila pendurada num ombro. O olho vermelho. A camisa para fora da calça, como se ele tivesse vestido correndo.
Luísa estava na sala. Olhou pra ele.
— Pedro?
— Oi.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Pedro.
Ele foi pro quarto. Não bateu a porta. Mas fechou devagar, como se não quisesse que ninguém percebesse.
Luísa esperou cinco minutos. Depois bateu.
— Pode entrar.
Ela entrou. Pedro estava sentado na cama, o celular na mão, mas a tela apagada.
— Senta — ele disse.
Ela sentou na cadeira da escrivaninha.
— Os meninos da escola tão me zuando.
— Zuando como?
— Falam que eu sou viado porque não gosto de futebol. Que eu ando igual menina. Que minha mochila é de pobre.
— Desde quando?
— Desde o começo do ano. Mas hoje um deles me empurrou na parede.
Luísa sentiu o sangue ferver. Mas manteve a voz calma.
— Você contou pra algum professor?
— Não. Aí eles falam mais.
— Pedro, você não pode guardar isso sozinho.
— E o que adianta contar? Eles não fazem nada.
— Já tentou?
— Não.
— Então a gente tenta. Amanhã cedo, eu vou com você na escola. A gente fala com a coordenação.
— Não. — ele apertou o celular. — Vai piorar.
— Pedro, olha pra mim.
Ele ergueu os olhos. Vermelhos.
— Você não merece isso. Ninguém merece. E não é fraqueza pedir ajuda. Fraqueza é ficar calado e deixar eles ganharem.
— Eles são mais fortes.
— Fisicamente, talvez. Mas não são mais nada.
— Eles têm grupo.
— Grupos assim se desfazem quando alguém de fora aponta o que tão fazendo. Você não tá sozinho.
Ele fungou. — E o que eu falo na coordenação?
— A verdade. Como começou, o que falam, o que fizeram hoje.
— E se eles negarem?
— Eles vão negar. Mas a escola tem câmera. E tem outros alunos que viram. A gente pede testemunha.
Pedro ficou em silêncio. O celular na mão.
— Você vai comigo?
— Vou.
— A manhã inteira?
— A manhã inteira. E depois a gente toma um sorvete.
Ele quase riu. — Sorvete?
— Sorvete de chocolate com banana. O que você quiser.
— Não precisa.
— Precisa. Bullying não acaba num dia. Mas acaba com a primeira denúncia. E você acabou de fazer a sua.
Pedro respirou fundo. — Tá bom. Amanhã.
Ele guardou o celular no bolso. O corpo parecia mais leve.
— Obrigado, Luísa.
— Você não precisa agradecer. — ela passou a mão no cabelo dele. — A gente se protege. É o combinado.
Ele abraçou ela. Apertado. Demorado.
Luísa fechou os olhos. Segurou firme.
*Fim da sequência: 115 → 129 — Pais que aprendem juntos, filhos que crescem protegidos.*