Carlos sentou na beirada da cama do Pedro. O menino estava deitado, olhando o teto. A luz do abajur desenhava sombras no quarto.
— Posso falar com você?
— Se for sobre o Miguel e o videogame, eu já resolvi.
— Não é. É sobre o que a Luísa falou.
Pedro virou a cabeça. — O quê?
— Que você não pediu pra ser irmão mais velho.
Pedro não respondeu.
— Isso me fez pensar — Carlos continuou. — Se eu perguntei pra você se queria um irmão. Se te preparei.
— Não perguntou.
— Não perguntei.
O silêncio se esticou.
— Você gosta do Miguel? — Carlos perguntou.
— Gosto.
— Mas ele irrita.
— Muito.
— É o trabalho do irmão mais novo. Irritar o mais velho.
Pedro quase riu. — Sério?
— É a lei do universo. O irmão mais novo nasce sabendo como apertar os botões do mais velho.
— Ele é bom nisso.
— E você é bom em quê?
Pedro pensou. — Não sei.
— Em ensinar. Vi você mostrando como ligar o videogame pra ele. Ele não sabe, mas você mostrou. Com paciência. No dia do carrinho, você escolheu um que não quebra. Você pensou.
— Ele é pequeno.
— É. E você é mais velho. E não é justo que você tenha que aguentar tudo. Mas é seu papel mostrar o caminho.
— E se eu não quiser?
— Você pode não querer. E ainda assim fazer. Porque é importante pra ele. E pra você.
Pedro ficou em silêncio.
— Sabe o que aprendi com meu irmão mais velho? — Carlos disse.
— O quê?
— A dividir. A perder. A ganhar sem humilhar. Ele me ensinou muito sem saber que tava ensinando. Só por estar perto.
— Seu irmão é legal?
— É chato. Mas é legal. — Carlos sorriu. — Como você.
— Eu não sou chato.
— É um pouco. Mas é legal também.
Pedro sorriu. Pequeno. Mas sorriu.
— Obrigado por perguntar — ele disse.
— Obrigado por responder.
Carlos levantou. Antes de sair, virou.
— Amanhã a gente faz pizza. Os três. Você, eu e o Miguel. A Luísa vai pro estúdio. Só nós.
— Os três?
— Os três.
— O Miguel vai sujar tudo.
— A gente lava.
Pedro revirou os olhos. Mas o sorriso ficou.
*Continua em: livreto-129.md — Luísa — Apoiar criança que sofre bullying*