A gritaria veio da sala. Luísa largou a colher no fogão e foi ver.
O Pedro segurava o controle do videogame no alto. O Miguel, já com um ano e meio, tentava alcançar, a carinha vermelha de raiva.
— Larga! — Pedro gritou.
— Miiiiinho! — Miguel berrou.
— É meu! Sai!
O Miguel caiu sentado. Começou a chorar. Pedro revirou os olhos.
— O que foi? — Luísa perguntou.
— Ele quer meu videogame. Mas é meu. Eu tava jogando.
— Você tava no celular. O videogame tava desligado.
— Mas é meu.
— E você pode emprestar.
— Não quero.
O Miguel chorava mais alto. Pedro apertou o controle contra o peito.
Luísa sentou no tapete. Puxou o Miguel pro colo. Ele se debatia.
— Os dois tão errados — ela disse. — Pedro, você não precisa emprestar. Mas pode falar com calma. Miguel, você não pode pegar o que não é seu. E não adianta chorar.
— Ele bateu em mim — Pedro disse.
— Ele tem um ano e meio, Pedro. Ele não sabe pedir.
— E eu tenho que aguentar?
— Você tem que ensinar. É irmão mais velho.
Pedro bufou. — Não pedi pra ser.
A frase doeu. Mas Luísa não mostrou.
— Não pediu. Mas é. E isso vem com responsabilidade. Não é culpa sua. É fato.
Pedro ficou em silêncio.
— Vamos fazer o seguinte — ela disse. — Você joga mais meia hora. Depois deixa o Miguel brincar com um brinquedo que não quebra. Escolhe um pra ele.
— E se ele quebrar?
— Você escolhe um que não quebra. Ele não é bebê destruidor.
Pedro hesitou. Olhou pro Miguel, que ainda soluçava no colo dela.
— Tá.
Ele foi pro quarto. Bateu a porta.
Luísa suspirou. O Miguel já tinha parado de chorar, distraído com o brinco dela.
— Brigar é normal — ela disse baixo. — Mas aprender a dividir é mais importante.
À noite, Pedro apareceu na sala. Colocou um carrinho na frente do Miguel.
— Toma. Esse não quebra.
Miguel pegou. Sorriu.
— Briguento — Pedro disse, mas sem maldade.
— Briguento — Miguel repetiu.
Luísa viu os dois no chão. Cada um com seu brinquedo. O mesmo espaço. Sem briga.
Por enquanto.
*Continua em: livreto-128.md — Carlos — Como conversar com crianças*