Carlos chegou em casa e encontrou a Luísa sentada no sofá, o olhar perdido. O Pedro brincava no quarto. O Miguel no tapete da sala.
— Aconteceu de novo — ela disse.
— O quê?
— O Pedro sumiu no parque. Por cinco minutos.
— E você achou?
— Fui atrás. Não, espera. Primeiro eu travei. Depois uma mãe me ajudou. Depois eu achei ele atrás de um cachorro.
Carlos sentou. — Você ficou com medo.
— Muito. — Ela encolheu as pernas. — E se fosse outra pessoa que tivesse achado ele primeiro?
— Mas não foi.
— Dessa vez.
O silêncio ficou pesado.
— A gente precisa de um plano — Carlos disse. — Não depende só de você. Precisa saber quem pedir ajuda, como pedir, o que falar.
— Eu sei pedir ajuda.
— Sabe? Porque pelo que você contou, você ficou paralisada.
Ela não respondeu.
— Não é crítica — ele completou. — É que se isso acontecer comigo e eu não tiver um plano, eu também vou travar.
Ele pegou o celular.
— Vou chamar o pessoal do condomínio. A gente monta um grupo de vizinhos. Se uma criança sumir, cada um sabe onde procurar.
— Tipo rede de apoio?
— Isso. A Dona Marta fica na portaria. O Seu Jorge varre a rua. A gente divide o perímetro.
— E a polícia? É 190?
— 190 pra polícia. O Conselho Tutelar é 100. Mas o primeiro número é sempre o nosso. A gente liga um pro outro. Depois decide se chama ajuda externa.
Carlos abriu o bloco de notas. Escreveu:
*1. Criança sumiu. Quem viu por último?*
*2. Fica no lugar onde viu ela pela última vez.*
*3. Uma pessoa busca. Uma pessoa fica.*
*4. Grita o nome da criança. Pergunta pra outras crianças.*
*5. Depois de 10 minutos: aciona rede de vizinhos.*
*6. Depois de 20: polícia.*
— Isso aqui fica na geladeira — ele disse.
Luísa leu. — Vinte minutos é muito.
— É o protocolo. Mas a gente não espera sentado. A gente age. Mas sem desespero. Desespero cega.
— E se for sequestro?
— Aí é imediato. Nem espera. Liga na hora.
Ela respirou fundo. — Você já pensou em tudo isso?
— Depois do shopping, sim. Não dormi uma noite pensando.
— Por que não falou comigo?
— Porque você tava no desespero. Eu fiquei na razão. — Ele segurou a mão dela. — A gente se completa, lembra?
— Lembro.
— Então agora a gente tem um plano. Escrito. Na geladeira. Pra não esquecer.
— E a gente treina?
— Treina amanhã com o Pedro. Sem assustar. Brincando.
— Brincando?
— Esconde-esconde no parque. Mas com regras. Ele aprende na prática.
Luísa apertou a mão dele. — Tá bom.
*Continua em: livreto-127.md — Luísa — Filhos que brigam entre si*