Carlos chegou da rua e ouviu o silêncio. O Miguel não estava no cercadinho. A Luísa não estava na cozinha.
— Luísa?
— Aqui.
A voz vinha do quarto. Ele foi. Encontrou os dois sentados no chão. A Luísa com o olho inchado. O Miguel no colo, brincando com um carrinho.
— O que houve?
— Ele engasgou. Com banana.
— O quê? — Carlos sentou na cama. — E agora?
— Já passou. Você não ouviu porque tava na rua. Mas passou.
— Você fez a manobra?
— Fiz.
Carlos respirou fundo. Sentou no chão com eles.
— E você? Tá bem?
— Não — ela disse. — O coração ainda não desacelerou.
— Era pra eu estar aqui.
— Você tava trabalhando. Não tem como saber.
— Mas podia ter sido pior.
— Foi. — Ela olhou pra ele. — Se eu não tivesse feito o curso... se eu tivesse congelado...
— Mas você não congelou.
— Por sorte.
— Não foi sorte. Foi preparo.
Ela balançou a cabeça. — Eu preciso de ajuda. Preciso saber que se eu congelar, tem alguém que sabe o que fazer.
— A gente contrata uma babá que tem treinamento.
— E a gente faz o curso de primeiros socorros de novo.
— Já fizemos.
— De novo. Até ficar automático.
Carlos encostou o ombro nela. — Vamos ligar pro pediatra amanhã. Perguntar se tem curso presencial na cidade. A gente faz junto.
— E o Miguel?
— Pede pra Dona Lúcia ficar.
— Ela sabe o que fazer se engasgar?
— Não sei.
— Então ela também precisa aprender.
Carlos ficou em silêncio. — Convida ela pro curso também.
— Vou.
O Miguel largou o carrinho. Engatinhou até o pai. Subiu no colo.
Carlos segurou ele. A respiraçãozinha normal. O peitinho subindo e descendo.
— Você sabe o número do SAMU? — Luísa perguntou.
— 192.
— E dos bombeiros?
— 193.
— E a manobra de Heimlich em bebê?
Ele parou. Pensou. — Barriga pra cima... não, em bebê é de bruços no braço. Compressão no peito com dois dedos.
— E se for criança maior?
— Fica atrás dela. Abraça. Mão fechada na boca do estômago. Comprime pra dentro e pra cima.
— Parece que você lembra.
— É parecido com o que eu li. — Ele suspirou. — Mas na hora do desespero, não sei se lembraria.
— Então treina comigo. Agora.
Ela colocou um travesseiro no colo do Carlos. Ensinou ele a manobra. Ele repetiu três vezes.
O Miguel achou que era brincadeira. Riu.
— A gente precisa saber de cor — Luísa disse. — Não é opcional.
— Sei.
— Porque se eu congelar, você precisa agir.
Carlos apertou o travesseiro. — Vou saber.
*Continua em: livreto-125.md — Luísa — Criança desaparecida*