O que fazer quando uma criança está engasgada?

Luísa

O Miguel estava no cadeirão, comendo pedaços de banana. Luísa virou pra pegar o copo de água. Ouviu um som diferente.

Não era choro.

Ela se virou. O Miguel estava roxo. Os olhos arregalados. A boca aberta. Nenhum som saía.

— Miguel!

Ela tirou ele do cadeirão num movimento só. O coração parou.

Engasgado. Estava engasgado.

— Carlos! — ela gritou, mas a voz saiu esganiçada.

O menino não respirava. Ela segurou ele de bruços no antebraço, a cabeça virada pra baixo. Lembrou do que viu no vídeo. O curso online que fez grávida.

Cinco tapas nas costas.

Ela contou em voz alta: — Um. Dois. Três. Quatro. Cinco.

Nada.

Virou o Miguel de barriga pra cima. Dois dedos no centro do peito. Cinco compressões.

Nada.

— Meu Deus, meu Deus...

De novo. Cinco tapas.

Na terceira, o pedaço de banana voou. Escorregou pela mão dela. Caiu no chão.

O Miguel inspirou. O ar entrou com um guincho alto. Depois o choro veio. Forte. Escandaloso.

Luísa sentou no chão. O Miguel no colo. Ela tremia das pernas aos braços.

— Tá bem — ela disse, a voz falhando. — Tá bem. Já passou.

Carlos chegou correndo. — O que foi?

— Engasgou.

— Passou?

— Passei. A manobra.

Ele ajoelhou na frente dos dois. Passou a mão no rosto do Miguel. Olhou pra Luísa.

— Você salvou ele.

Ela começou a chorar. — Eu quase... eu não sabia se ia funcionar.

— Funcionou.

O Miguel já estava recuperado. Chorava no colo dela, mas já estendia a mão pro brinquedo no chão.

Luísa apertou ele contra o peito. O coração ainda disparado.

— A gente precisa revisar a manobra — ela disse, a voz ainda instável.

— A gente revisa. Todo mês.

— Todo mês.

O pedaço de banana no chão parecia inofensivo. Pequeno. Um pedaço de fruta que quase tirou o ar do filho dela.

Ela nunca mais ia cortar banana em rodelas. Ia cortar em tiras finas. E ia ficar de olho. Sempre.

*Continua em: livreto-124.md — Carlos — Pedir ajuda engasgada*