O restaurante estava cheio. Luísa sentou na mesa do fundo, o Miguel no colo, a mamadeira vazia na bolsa. O garçom trouxe os cardápios.
— O que vai ser?
— Pra mim um filé de frango com salada. — Luísa hesitou. — E... o senhor pode trazer uma água morna?
— Morna?
— É, pro bebê. Pra fazer a mamadeira.
O garçom franziu a testa. — A gente tem água gelada, filtrada. Morna é... não sei se dá.
— Se o senhor ferver um pouco e deixar esfriar...
— A gente não pode ferver só um pouco.
Luísa sentiu o rosto esquentar. O Miguel começou a chorar baixinho. Ela balançou ele no colo.
— Tudo bem, então. Não precisa.
O garçom saiu. Ela ficou olhando a mesa. A água gelada não resolvia. Fazer mamadeira com água fria não era ideal, e o bebê não ia aceitar.
Carlos chegou do banheiro, sentou. — Aconteceu alguma coisa?
— Pedi água morna. Ele disse que não pode.
— E você desistiu?
— Ele disse que não dava.
— Luísa — Carlos apoiou os cotovelos na mesa. — O bebê precisa comer. Você não tá pedindo nenhum absurdo. Vou falar com ele.
— Não precisa.
— Precisa.
Ele se levantou. Foi até o balcão. Falou com o gerente. Dois minutos depois, voltou com uma caneca de água morna.
— O gerente pediu desculpas. Falou que a moça da cozinha aqueceu no micro-ondas. Da próxima, é só pedir diretamente pra ele.
Luísa preparou a mamadeira. O Miguel sugou com vontade.
— Você não precisa aceitar o primeiro não — Carlos disse.
— Sei.
— Às vezes a pessoa fala não porque não sabe como fazer. Não porque não pode.
Ela passou a mão na cabeça do Miguel. O leite descendo. Os olhos dele fechando devagar.
Na mesa ao lado, uma mãe com um bebê pequeno observava. Luísa viu ela anotar mentalmente.
*Continua em: livreto-118.md — Carlos — Motorista aceita cadeira de bebê*