O saguão do aeroporto estava cheio. Luísa segurava o Miguel no colo, a mochila de fraldas pendurada no ombro esquerdo, a alça escapando. Do lado, o carrinho de bebê vazio.
— Senhora, pode se posicionar no portão — a voz no alto-falante.
Ela olhou o painel. Voo 2307. Embarque iniciando.
As pessoas já formavam fila. Um homem de terno na frente, headset no pescoço. Uma senhora com duas malas de mão. Um casal jovem sem filhos.
Luísa ficou parada. O Miguel pesava no braço. Ela sabia que tinha direito à prioridade. Sabia que podia passar na frente. Mas não queria parecer que estava furando a fila.
— Vamos? — Carlos apareceu do lado, o cartão de embarque na mão.
— Tô esperando.
— Esperando o quê?
Ela não respondeu. O Miguel começou a chorar baixinho, o corpo virando, o desconforto da posição.
— Luísa — Carlos disse baixo. — Você tem um bebê no colo. Você não tá furando nada. É prioridade.
— Eu sei.
— Então vai.
Ela respirou fundo. Andou até o balcão. A atendente sorriu.
— Prioridade com bebê? Pode passar.
Luísa passou. O rapaz de terno segurou o corredor para ela. Não teve um olhar de julgamento. Ninguém reclamou. O Miguel parou de chorar assim que ela sentou no assento do avião.
Ela olhou pela janela. O aeroporto lá embaixo.
— Tudo bem? — Carlos perguntou, sentando ao lado.
— Eu fico com vergonha de pedir.
— Vergonha de quê? É um direito seu. E do Miguel.
— Sei disso. Mas na hora... parece que tão olhando.
— Não tão. E se tão, que olhem. Você não fez nada errado.
O avião começou a taxiar. Luísa apoiou Miguel no colo, a cabecinha dele encaixada no ombro dela. Ele já dormia.
Ela fechou os olhos. Na próxima vez, não ia esperar.
*Continua em: livreto-116.md — Carlos — Assento para bebê*