Domingo de manhã. Carlos estava na praça com os dois. O Miguel no carrinho. Pedro ao lado, celular na mão.
Um senhor passou com um carrinho de recicláveis. Roupa surrada, pés inchados dentro da sandália de dedo.
Pedro levantou os olhos do celular.
— Ele mora na rua?
— Não sei. Mas tá trabalhando.
— Trabalhando com lixo?
— Reciclagem. É um trabalho.
— É injusto.
Carlos parou o carrinho. — O que é injusto?
— Ele ter que catar lixo enquanto a gente toma café na padaria.
— É. É injusto.
— E o que a gente faz?
— Boa pergunta.
—
Eles sentaram num banco. O Miguel dormia no carrinho. O sol filtrava pelas árvores.
— Sabe o que eu aprendi — Carlos disse. — Que a gente não resolve tudo. Mas a gente não precisa resolver tudo pra fazer alguma coisa.
— Tipo o quê?
— Você tem roupa que não usa mais?
— Tenho.
— Sapato?
— Também.
— A gente pode separar e doar. Não resolve a vida dele. Mas resolve o pé dele.
Pedro pensou. — É pouco.
— É. Mas é mais que nada.
—
Na segunda, Carlos chegou do trabalho e encontrou o quarto do Pedro revirado.
— Tá arrumando?
— Separando roupa.
No chão, duas pilhas. Uma pra ficar. Uma pra doar.
— Tênis também? — Carlos perguntou.
— Tênis também. Comprei outro mês passado.
Carlos sentou na cama. Pegou um casaco da pilha. Lembrava do Pedro usando no inverno passado.
— Isso é legal.
— É só roupa.
— Não é. É escolha. É olhar pro lado.
—
Na janta, Luísa viu os sacos de doação.
— O Pedro separou?
— O Pedro separou. E perguntou onde a gente leva.
— Eu levo no Centro de Referência da Assistência Social. — Luísa olhou pro Pedro. — Quer ir comigo?
— Pode ser.
Carlos serviu a comida do Miguel. O bebê bateu a colher na mesa.
— Tem que começar cedo — Carlos disse. — Olhar pro outro.
— Ensina pelo exemplo — Luísa respondeu.
— É. O exemplo.
O Pedro mastigou em silêncio.
— Pai — ele disse —, amanhã na escola vai ter campanha de agasalho.
— Vai?
— Vou levar os sacos.
— Pode levar.
Pedro sorriu. O primeiro sorriso do dia.
*Continua em: livreto-111.md — Luísa — Selante dental para crianças*