O Pedro chegou da escola com uma pergunta que pegou Luísa de surpresa.
— Pai do Gabriel tem dois pais.
— É — ela respondeu. — Famílias são diferentes.
— Mas pai e mãe é o normal.
— Normal é o que existe mais. Mas não é o único jeito de ser família.
Ele franziu a testa. Pensou.
— E duas mães?
— Também.
— E gente que não quer ter filho?
— Também existe.
— E gente que nasce menino mas quer ser menina?
Luísa colocou o celular de lado. Desligou a TV. — Senta.
Ele sentou, desconfiado.
— Você tá perguntando porque ouviu falar. Ou porque tem alguém assim na escola?
— Tem um menino no oitavo ano que quer usar saia.
— E o que você acha?
— Os meninos riem.
— E você?
— Não rio. Mas não entendo.
Luísa se inclinou. — Não precisa entender tudo pra respeitar. Você não entende por que eu gosto de música clássica. Mas não desliga o rádio quando toca.
— É diferente.
— É o mesmo princípio. Gosto, escolha, identidade. Cada pessoa sabe quem é melhor do que qualquer outra.
—
Mais tarde, ela conversou com Carlos.
— O Pedro perguntou sobre diversidade hoje.
— Sobre o quê exatamente?
— Sobre um menino que quer usar saia na escola.
— E o que você falou?
— Que não precisa entender pra respeitar.
Carlos apoiou a mão no balcão. — E se ele for zuado por respeitar?
— Aí a gente conversa sobre coragem. Sobre apoio. Sobre estar do lado certo.
— E o Miguel, como a gente ensina?
— Com livros. Com desenhos. Com exemplos. Desde pequeno.
—
No sábado, Luísa foi na livraria. Voltou com três livros infantis.
— O que é isso? — Carlos perguntou.
— Princesa que se casou com princesa. Menino que gosta de dançar. Família de dois pais.
— Ele é bebê.
— Bebê aprende pelo que vê. Se desde pequeno ele vir diversidade nos livros, ele não vai estranhar quando encontrar na vida.
Carlos pegou um dos livros. Folheou.
— Acho que eu também precisava ter lido isso quando criança.
— A maioria de nós precisava.
Ela sentou no sofá. Abriu o livro com o Miguel no colo.
— Olha, Miguel. Duas princesas. Uma de cabelo cacheado, outra de cabelo liso. As duas se amam.
O Miguel apontou pro desenho. Sorriu.
Luísa continuou lendo.
*Continua em: livreto-110.md — Carlos — Criar filhos socialmente conscientes*