Como lidar com a pressão para beber em situações sociais?

Carlos

Happy hour da transportadora. O bar estava cheio. Os colegas de trabalho em volta da mesa comprida. Amendoim, porção de fritas, cerveja gelada.

— Vai um litrão? — o Marcelo do financeiro perguntou.

— Vou de refrigerante — Carlos respondeu.

— Refrigerante? No happy hour?

— Tô de boa.

Marcelo franziu a testa. — Você nunca bebe.

— Bebo. Só não hoje.

— Mas hoje é happy hour. É pra beber.

Carlos riu sem graça. — Pode ser outro dia.

— Tá pagando de bonzinho?

— Não. Só não quero.

O Carlos, chefe dele, estava na ponta da mesa. Copo de whisky na mão. Não falou nada. Só observou.

A noite continuou. Mais gente chegou. Mais cerveja. Carlos segurou o mesmo copo de refrigerante a noite inteira.

— Esse aí é o motorista da vez — o André do RH brincou.

— Pode ser.

— Pode ser nada. Bebe um pouco. Ninguém vai te julgar.

— Mas se eu não beber, vão. — Carlos disse. — Qual é a diferença?

André riu. — Tá certo. Respeito.

Na segunda, o Carlos chamou Carlos na sala.

— Sobre o happy hour…

Carlos passou a mão na nuca. — Foi estranho?

— Foi interessante. — Carlos apoiou os óculos. — Você segurou a pressão.

— Não é sempre que consigo.

— Mas na sexta conseguiu.

— É que eu tenho bebê em casa. O Miguel acorda de madrugada. Se eu bebo, acordo pior. Acordo pior, cuido pior. Prefiro não beber.

Carlos assentiu. — Motivo honesto.

— Motivo real.

— E se não tivesse motivo?

— Como assim?

— E se você só não quisesse beber. Sem motivo.

Carlos pensou. — Ia ser mais difícil. Mas ia tentar.

Carlos apoiou a caneta na mesa. — Seu corpo, sua regra. Não precisa de motivo. Pode ser só não querer. Não é fraqueza explicar. É força saber o limite.

Em casa, Carlos contou pra Luísa.

— O chefe falou que não precisa de motivo.

— Ele falou bem.

— Mas ainda sinto que preciso.

— Você não precisa. É treino. — Luísa pegou a mão dele. — Da próxima, quando perguntarem, fala "não tô afim". Ponto.

— E se insistirem?

— Repete. Sem explicação. Sem desculpa. Só "não tô afim".

Ele respirou. Parecia mais simples do que era.

— Vou tentar.

— Não precisa tentar. É só falar.

*Continua em: livreto-109.md — Luísa — Educar sobre diversidade*