O jantar de confraternização do estúdio. Mesa comprida, pratos bonitos, garrafas de vinho abrindo uma atrás da outra.
Luísa pediu água com gás.
— Só isso? — o fornecedor perguntou. — Nem um vinho?
— Hoje não.
— Um copo só. Esse é importado.
— Prefiro água.
Ele riu, sem graça. — Taí uma mulher que sabe se controlar.
Luísa sorriu. Não respondeu.
—
A noite avançou. Mais gente perguntou. *Não vai beber? Tá grávida? Dirigindo? Amanhã tem compromisso?*
— Tô de boa — ela respondia.
Algumas pessoas aceitavam. Outras insistiam.
— É nojento — a prima de uma das sócias comentou. — Gente que não bebe num jantar desses.
Luísa ouviu. Não respondeu.
—
No dia seguinte, no escritório, Camila comentou.
— Você não bebeu ontem.
— Bebi água.
— As pessoas notaram.
— Notaram porque não é comum. Mas não precisam notar.
— Por que você não bebeu?
Luísa pensou. — Vários motivos. Mas nenhum deles é da conta de ninguém.
— Pode não ser da conta, mas as pessoas perguntam.
— E eu posso não responder.
—
Na semana seguinte, Luísa foi a um aniversário. Sozinha. Carlos ficou com o Miguel.
Na mesa de bebidas, um conhecido do Carlos ofereceu cerveja.
— Vai uma?
— Não, obrigada.
— Um copo?
— Não.
Ele levantou as mãos. — Respeito.
Ela sorriu. E pronto.
—
Chegando em casa, contou pra Carlos.
— Três pessoas perguntaram por que eu não bebia.
— E você?
— Falei que não queria.
— Só isso?
— Só isso. Não preciso de motivo. Não preciso de história. Não preciso inventar que tô de dieta ou de remédio.
Carlos abriu uma cerveja pra ele. — É difícil.
— Não é. A gente que acha que precisa justificar. Mas não precisa. Basta um "não, obrigada".
— E quando insistem?
— Insistem de novo. E eu repito. A terceira vez eles param.
Ele bebeu um gole. — Você é boa nisso.
— Treino. Antes eu inventava desculpa. Agora eu só falo não.
— E se perguntarem por que você mudou?
— Falo que aprendi que não preciso explicar o que coloco no meu corpo. Nem bebida. Nem comida. Nem nada.
*Continua em: livreto-108.md — Carlos — Pressão para beber*