Como conversar sobre divórcio com os filhos?

Carlos

O Pedro chegou da escola com uma pergunta que não estava no dever de casa.

— Pai, o Gabriel falou que os pais dele vão se separar.

Carlos estava enrolando um sushi de mentira. O Miguel no colo, tentando pegar o arroz.

— É — ele disse. — Acontece.

— Por que as pessoas separam?

— Vários motivos.

— Mas por que não tentam de novo?

Carlos colocou o Miguel no cercadinho. Secou a mão no avental. Sentou na mesa.

— Vamos sentar?

Pedro sentou. Apoiou os cotovelos.

— Você e a Luísa podem separar?

— Não planejamos.

— Mas podem.

— Podemos. Como qualquer casal. Mas a gente trabalha pra não chegar lá.

— Como?

Carlos pensou. — Conversando. Mesmo quando é difícil. Pedindo desculpa. Escutando.

— E você e minha mãe?

— A gente tentou. Por um tempo. Não deu.

— Por quê?

— Porque a gente não sabia conversar direito. Cada um guardava as coisas. Até que não cabia mais.

Pedro baixou os olhos.

— Isso não é culpa sua — Carlos disse rápido. — Divórcio é coisa de adulto. Criança não tem culpa.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Pedro balançou a cabeça.

— O que você lembra da separação?

— Lembro de você indo embora de casa. Lembro de chorar.

Carlos sentiu o peito apertar. — Eu lembro também. E me arrependo de não ter explicado melhor na época.

— Explica agora.

Carlos respirou. — A gente se separou porque não conseguia mais viver junto. Não porque a gente não amava você. Isso nunca mudou. Eu e sua mãe erramos um com o outro. Mas não erramos com você.

— E se eu quiser morar com ela?

— Você mora. Metade do tempo.

— E se eu quiser morar aqui sempre?

— A gente conversa. Sua opinião importa.

Pedro brincou com o grão de arroz na mesa.

— O Miguel vai passar por isso? — ele perguntou.

— Se a gente fizer bem-feito, não.

— Mas não tem garantia.

— Não tem. Mas a gente tenta.

Mais tarde, Carlos contou pra Luísa.

— Ele tem medo — ela disse.

— De quê?

— De a gente separar também. De perder você de novo. De perder o Miguel. De perder todo mundo.

— Ele não perdeu ninguém.

— Mas o trauma do divórcio fica. A gente não apaga. Só mostra que é diferente.

Carlos segurou a mão dela.

— A gente vai mostrar.

— A gente já mostra. Todo dia.

*Continua em: livreto-105.md — Luísa — Manter amizade quando um tem filho e outro não*