A Camila apareceu no estúdio com aquela cara. Luísa conhecia. Cara de que queria falar mas não sabia como.
— Comecei a namorar — Camila disse.
— Ué, isso é notícia boa.
— É. Mas ele tem filho. Uma menina de seis anos.
Luísa apoiou a caneca na mesa. — E?
— E quando apresenta? — Camila puxou a cadeira. — A gente tá junto há três meses. É recente. Mas ele quer que eu conheça a menina. E eu não sei se é cedo.
— O que você sente?
— Medo. Se der errado, a criança sofre. Se der certo, eu viro parte da vida dela.
— Você já pensou no que significa?
— Ser madrasta.
— Madrasta. — Luísa repetiu a palavra. — Quando eu conheci o Pedro, ele tinha nove. Carlos falou: "Ele é meu filho, a gente mora junto, você precisa entrar nessa."
— E como foi?
— A primeira vez foi no parque. Uns vinte minutos. Sem pressão. Sem "essa é sua nova mãe". Só "essa é Luísa, minha amiga".
— E como você se preparou?
Luísa pensou. — Eu li sobre. Pesquisei. Chorei um pouco também.
— Choro?
— Medo de não ser aceita. Medo de atrapalhar. Medo de não saber o meu lugar.
— Sabia?
— Ainda não sei totalmente. Mas aprendi que lugar não se exige. Se constrói.
—
Camila ficou em silêncio.
— Se eu pudesse dar um conselho — Luísa disse — seria: não apressa. Conhece o pai primeiro. Tem certeza que é uma relação sólida. Depois apresenta a criança.
— Quanto tempo?
— Não tem fórmula. Quando você souber que aquela relação vale o risco, você apresenta.
— E como apresenta?
— Lugar neutro. Parque, sorveteria, algo curto. Sem dormir junto. Sem mudar a rotina. A criança precisa sentir que nada mudou no mundo dela.
— E se ela não gostar de mim?
— Acontece. Mas na maioria das vezes, a criança só quer saber se você vai tratar ela bem. Se você for genuína, ela sente.
Camila respirou fundo. — Você fala como se fosse fácil.
— Não é. Mas é melhor do que apresentar cedo, a criança criar vínculo, e depois a relação acabar.
—
No fim da tarde, Luísa chegou em casa. O Miguel dormia. O Pedro no quarto, estudando.
Carlos estava na cozinha.
— Tá pensativa — ele disse.
— A Camila vai conhecer a filha do namorado.
— E você ficou pensando em quando conheceu o Pedro.
— Sempre penso.
Ele parou de cortar o tomate. — O que você pensa?
— Que foi mais difícil pra ele do que pra mim. Ele que teve que aceitar uma estranha na casa.
— Ele aceitou.
— Porque você fez direito.
Carlos apoiou a faca. — A gente fez direito. Juntos.
Luísa sorriu. Pegou o Miguel no colo. O bebê acordou e sorriu pra ela.
*Continua em: livreto-104.md — Carlos — Conversar sobre divórcio com os filhos*