— Esse bebê tá com frio.
Dona Lúcia enrolou o Miguel no casaquinho azul. O menino, que estava tranquilo no colo, começou a se debater e chorar.
— Mãe, ele estava bem — Luísa disse.
— Mãozinha gelada. Bebê com mão fria é sinal.
— Pediatra falou que mão gelada é normal. A circulação ainda tá se desenvolvendo.
— Pediatra hoje em dia…
Dona Lúcia balançou a cabeça. Continuou enrolando o neto.
Luísa respirou fundo. Olhou pra Carlos. Ele mexeu na caneca de café. Olhou pro lado.
—
A visita continuou. Na hora do almoço, Dona Lúcia viu a papinha do Miguel.
— Isso é comida de bebê? Não tem sal. Não tem tempero.
— Pediatra falou que antes de um ano não pode sal — Luísa respondeu.
— Mas fica sem gosto. A minha filha do vizinho comeu com sal desde os oito meses e tá saudável.
— Mãe, cada família…
— Eu só tô ajudando.
— Eu sei. Mas a decisão é nossa.
Dona Lúcia não respondeu. Comeu em silêncio o resto da refeição.
—
Depois que ela foi embora, Luísa sentou no sofá. O Miguel dormia no berço. O Toby deitou aos pés dela.
Carlos se aproximou.
— Ela não faz por mal.
— Eu sei.
— Ela só quer ajudar.
— Eu sei.
— Mas te incomoda.
Luísa virou o rosto. — Toda visita é assim. Ela chega, eu viro espectadora da minha própria casa. Ela sabe mais. Ela fez três filhos. Eu sou mãe de primeira viagem.
— Você é mãe do Miguel.
— E ela lembra disso toda hora.
Carlos sentou. — O que você quer que eu faça?
— Que você fale com ela também. Não deixa tudo pra mim.
— Eu falo.
— Você desvia o olhar.
Ele ficou em silêncio.
— Eu não quero briga com sua mãe — Luísa disse. — Mas quero que ela entenda que as regras da casa são nossas.
—
No sábado seguinte, Dona Lúcia veio de novo. Pegou o Miguel no colo. Sorriu. O bebê riu.
— Tá mais gordinho — ela disse. — Agora sim.
Luísa serviu café. Sentou.
— Mãe Lúcia, a senhora pode ajudar com uma coisa?
— Claro.
— O que a senhora fazia quando o Carlos era bebê e não queria dormir?
Dona Lúcia contou. As histórias vieram com risada, com memória, com afeto.
Luísa escutou. E quando Dona Lúcia deu uma sugestão, Luísa anotou no celular.
— É que hoje o pediatra recomenda diferente em algumas coisas — Luísa disse. — Mas a senhora tem experiência que eu não tenho. Se a senhora puder perguntar antes de fazer, a gente aprende junto.
Dona Lúcia parou. Olhou pra ela.
— Tô perguntando demais?
— A senhora ama. E eu sei. Só quero que a gente divida, não que a senhora assuma.
Dona Lúcia apertou o neto contra o peito.
— Combinado.
*Continua em: livreto-102.md — Carlos — Relação entre filhos e ex do parceiro*