O Miguel tinha derrubado o copo de suco na sala. Não de propósito. Mas foi a terceira vez na semana.
Carlos levantou do sofá. — Já falei que não é pra levar copo pra sala.
O Miguel começou a chorar.
— Não precisa gritar — Luísa disse, passando com o pano.
— Não tô gritando.
— Tá perto.
O Miguel chorava mais alto. Carlos passou a mão na nuca. A tarde que era calma tinha virado um nó.
— Eu vou lá limpar — ele disse.
— Já limpei.
Ele ficou parado no meio da sala. O Toby olhando de um lado pro outro. O suco no chão já era só uma mancha úmida.
— A gente precisa conversar sobre isso — Carlos disse.
— Sobre suco?
— Sobre como a gente briga na frente deles.
Luísa parou. Largou o pano na pia. — Tudo bem. Depois que eles dormirem.
—
De noite, o Miguel já tinha esquecido o suco. O Pedro no quarto, fone no ouvido. A sala silenciosa.
Carlos sentou no sofá. Luísa na poltrona.
— O que você acha que eu fiz de errado? — ele perguntou.
— Não foi errado. Foi o tom.
— O tom?
— Você falou como se ele tivesse feito de propósito. Ele é pequeno. Copo escorrega.
— Eu sei. Mas é a terceira vez.
— E daí? Bebê derruba copo. Faz parte.
Carlos inclinou o corpo pra frente. — O que você queria que eu fizesse?
— Pegasse a mão dele, ajudasse a limpar, e falasse calmo: \"Olha, o copo caiu. Da próxima, segura com as duas mãos.\"
— Menos bronca, mais ensino.
— Isso.
Ele pensou.
— E com o Pedro? — Carlos perguntou. — Quando ele chega tarde, você fala de um jeito. Eu falo de outro.
— Eu chamo ele e converso. Você espera no quarto e solta a frase quando ele passa.
— Porque não quero confronto na hora.
— E eu quero. Mas a gente nunca combinou isso.
Carlos respirou fundo. — Talvez a gente precise de um combinado.
— Combinado de quê?
— De como cada um fala. De quando um entra no lugar do outro. De não se cortar na frente deles.
Luísa cruzou os braços. — Como a gente faz isso?
— A gente senta. Sem Miguel. Sem Pedro. E combina.
— Tipo agora?
— Tipo agora.
Ela quase sorriu. — Tá bom. Vamos.
—
Meia hora depois, eles tinham três combinados escritos no guardanapo da mesa:
1. Bronca só em particular. O outro não corta, não defende, não atrapalha.
2. Depois, os dois conversam. Se discordou, fala longe dos filhos.
3. Nunca desautorizar o outro na frente deles.
Carlos olhou pro guardanapo. — Parece simples.
— É simples. Difícil é fazer.
— A gente vai errar.
— Vai. — Luísa apoiou o pé no joelho. — Mas pelo menos sabe pra onde voltar.
*Continua em: livreto-101.md — Luísa — Sogra interfere na criação*