Eram onze da noite. Carlos estava quase dormindo quando ouviu passos no corredor. Batida leve na porta.
— Pai.
— Pode entrar.
Pedro entrou. A camiseta amassada. A cara de quem não conseguiu dormir.
— Não consigo parar de pensar — ele disse.
— Pensar em quê?
— Na prova de amanhã. Na apresentação de sexta. No que o Gabriel falou ontem. Tudo ao mesmo tempo.
— Senta.
Pedro sentou na borda da cama. As mãos apertando o lençol.
— O que você sente agora? — Carlos perguntou.
— O coração acelerado. A cabeça quente. Parece que vou explodir.
— Sabe o que é isso?
— Ansiedade.
— Sabe o que fazer?
Pedro balançou a cabeça.
Carlos sentou também. — Vamos tentar uma coisa. Inspira comigo. Quatro segundos.
Ele inspirou. Pedro imitou.
— Segura. Quatro segundos.
Seguraram.
— Solta. Quatro segundos. Devagar.
Eles repetiram três vezes.
— Melhorou? — Carlos perguntou.
— Um pouco.
— Agora me fala uma coisa de cada vez. O que te preocupa na prova?
— Se eu passar.
— E se não passar?
Pedro pensou. — Tem recuperação.
— E o que acontece se for pra recuperação?
— Estudo de novo.
— E aí?
— Aí passo.
— Então não é o fim do mundo?
Pedro respirou fundo. — Não.
— E a apresentação?
— Tenho medo de esquecer.
— E se esquecer?
— O professor deixa ler o resumo.
— Então?
Pedro sorriu fraco. — Então não tem motivo pra tanto medo.
— Tem motivo. — Carlos apoiou a mão nas costas dele. — A ansiedade não é sua inimiga. Ela só avisa que algo é importante pra você. O problema é quando ela grita mais alto que a razão. Aí você precisa acalmar ela pra poder ouvir os dois lados.
Pedro olhou pra ele.
— Obrigado.
— De nada. Tenta dormir. Se não conseguir, volta aqui.
— Vou tentar.
Ele saiu. Carlos ficou sentado na cama. A luz do abajur. O silêncio da madrugada.
Ouviu a porta do quarto do Pedro fechar. Depois, silêncio.
*Continua em: livreto-099.md — Luísa — Preparar para vida adulta*