A segunda-feira começou com o despertador tocando às seis e meia. Luísa já estava de pé. Café passando. O Miguel acordou e ela ouviu o choro pelo monitor.
Pedro ainda dormia.
— Pedro! — ela chamou do corredor. — Quinze minutos.
Um grunhido do quarto.
Ela alimentou o Miguel. Preparou o lanche do Pedro. Colocou a mochila perto da porta. Quinze minutos depois, Pedro apareceu na cozinha com a camiseta do uniforme amassada, o cabelo desgrenhado.
— Café na mesa — ela disse.
Ele sentou. Pegou a caneca. Bebeu em silêncio.
— Tá com sono?
— Tô.
— Que horas você dormiu?
— Umas onze e meia.
— Noite passada era domingo. Você precisava ter dormido mais cedo.
— Não consegui.
Luísa sentou na frente dele. — A gente precisa conversar sobre horário.
— De novo?
— De novo. — ela pegou a caneca de café dela. — Olha o seu dia: você acorda tarde, come correndo, vai pra escola, volta, fica no celular, come qualquer coisa, dorme tarde. Repete.
— Funciona.
— Funciona mal. Você tá sempre cansado. Sempre com fome na hora errada. Sempre atrasado.
Pedro não respondeu.
— Tô propondo um ajuste — Luísa disse. — Nada radical. Jantar às sete e meia. Celular guardado às nove. Luz apagada às dez. Acorda às seis e meia.
— Nove é cedo.
— Pra celular. Não pra dormir. Pode ler, desenhar, ouvir música. Só sem tela.
— E o que eu ganho com isso?
— Menos cansaço. Mais disposição. Nota melhor, talvez.
— Talvez?
— Talvez. Não sou mágica. Mas seu corpo funciona melhor com rotina. Não é invenção minha. É biologia.
Pedro mordeu a torrada.
— Uma semana — ele disse.
— Uma semana?
— Teste. Se não funcionar, a gente volta.
— Fechado.
Na primeira noite, Pedro entregou o celular às nove. Reclamou. Disse que não ia conseguir dormir. Às nove e quarenta, Luísa passou pelo quarto e ele já estava dormindo, o livro aberto no peito.
Ela fechou o livro. Desligou a luz.
Duas semanas depois, Pedro acordou antes do despertador.
— Seu corpo se acostumou — Luísa disse na cozinha.
— É — ele respondeu. — Acho que sim.
*Continua em: livreto-098.md — Carlos — Ansiedade dos filhos*