Carlos recebeu o telefonema no meio do expediente. Era a coordenadora da escola. *Pedro foi encontrado com cigarro eletrônico no banheiro.*
Ele pediu meia hora no trabalho. Saiu. O sol da tarde bateu no rosto enquanto ele caminhava até o carro. A mão tremia na chave.
Quando chegou em casa, Pedro já estava no quarto. Porta fechada.
Carlos bateu.
— Sai — a voz do menino.
— Abre.
Um minuto. A porta abriu. Pedro sentou na cama. O olho vermelho. De choro ou de cansaço, Carlos não sabia.
— Senta — Carlos disse.
— Não vou levar sermão.
— Não vou dar sermão.
Carlos sentou na cadeira da escrivaninha. Os dois se olharam.
— O que era? — Carlos perguntou.
— Vape.
— Sabia que é proibido pra menor?
— Sei.
— Sabia que faz mal?
— Sei.
— Sabia que a escola podia suspender?
— Sei.
Carlos respirou fundo. — Então por que fez?
Pedro não respondeu.
— Não é pegadinha — Carlos disse. — Eu quero entender o que levou você a colocar aquilo na boca no banheiro da escola.
Pedro puxou o joelho. Abraçou a perna.
— Todo mundo usa.
— Todo mundo não.
— Os amigos.
— Tudo bem. Mas não responde a pergunta.
O silêncio ficou pesado.
— Você queria experimentar — Carlos disse. — Ou queria ser aceito?
— Os dois.
— E o que achou?
— Não gostei. Queimou a garganta.
— E repetiria?
Pedro balançou a cabeça. — Não.
— Por que não?
— Medo.
— Medo de quê?
— De você descobrir de novo.
Carlos quase riu. Quase. — Não. Medo de você perceber que não vale a pena. Isso é mais importante que eu descobrir.
Pedro levantou os olhos.
— O vape é a ponta do iceberg — Carlos disse. — Depois vem maconha, depois outras coisas. Não tô falando que você vai. Tô falando que é um caminho. E você acabou de pisar no primeiro degrau.
— Não vou usar de novo.
— Por que devo acreditar?
— Porque eu tô falando.
Carlos olhou nos olhos do filho. Parecia sincero.
— Então tá. Mas vamos combinar: se aparecer de novo, a conversa é outra. Com psicólogo, com limites mais claros. Combinado?
— Combinado.
Carlos levantou. Foi até o filho. Colocou a mão na cabeça dele.
— Não tô bravo. Tô preocupado. Tem diferença.
— Sei.
— Boa noite.
— Boa noite.
Carlos saiu. Fechou a porta. Apoiou a testa na parede do corredor. Respirou fundo antes de voltar pra sala.
*Continua em: livreto-097.md — Luísa — Rotina saudável*