Luísa reparou que Pedro estava diferente há algumas semanas. Mais quieto. Menos fome. O celular sempre no escuro, virado pra baixo.
Ela não perguntou na hora. Esperou.
Numa quarta à noite, encontrou ele na sala, tarde. A TV desligada. Ele olhando pro nada.
— Não consegue dormir? — ela perguntou.
— Não.
— Quer companhia?
Ele hesitou. Depois balançou a cabeça que sim.
Luísa sentou ao lado. Não acendeu a luz. O silêncio do apartamento era preenchido pelo zoado fraco da geladeira.
— Tem alguma coisa pesada acontecendo? — ela perguntou.
Pedro não respondeu.
— Não precisa me contar agora. Mas quero que saiba que eu percebo.
— Percebe o quê?
— Que você não tá bem.
Ele respirou fundo. A respiração tremia.
— Não sei explicar — ele disse.
— Pode tentar.
— É como se tivesse um peso. Aqui. — ele tocou o peito. — O tempo todo. Acordo com ele. Durmo com ele. Não vai embora.
Luísa escutou.
— Já tentei falar com meu pai. Mas ele fala pra fazer exercício. Pra pensar positivo. Como se fosse escolha.
— E não é?
— Não. — a voz dele falhou. — É como se eu tivesse afogando e ele falasse pra eu nadar.
Luísa segurou a mão dele. Ficou em silêncio.
— Você já pensou em falar com um profissional? — ela perguntou.
— Tipo psicólogo?
— Tipo isso.
— Não sei. Nunca fiz.
— Eu já fiz.
Pedro virou o rosto. — Você?
— Fiz. Durante um ano. Depois que meu pai morreu. Ajudou.
— Ajudou como?
— Me deu nome pro que eu sentia. E me deu ferramenta. Não resolveu tudo. Mas ensinou que eu não precisava resolver sozinha.
Pedro ficou em silêncio.
— Eu posso marcar — ela disse. — Se você quiser. Primeira consulta é conversa. Não precisa decidir nada agora.
— E se não funcionar?
— A gente tenta outra. Mas a gente tenta.
Ele apertou a mão dela de volta.
— Marca.
— Marquei amanhã cedo — Luísa disse.
Ele quase riu. — Você já tinha marcado?
— Já. — ela sorriu no escuro. — Tava esperando você dizer sim.
*Continua em: livreto-096.md — Carlos — Filho envolvido com drogas*