Sábado de manhã, a feira estava cheia. Luísa parou na barraca de verduras, o Miguel no carrinho, a sacola reutilizável no braço. Pedro caminhava ao lado, mãos nos bolsos.
— Pega um pé de alface pra mim — Luísa disse.
— Qual?
— Qualquer um. Olha qual tá mais bonito.
Pedro olhou as opções. Pegou um. Colocou na sacola.
— Você escolheu por quê?
— As folhas tão mais verdes. Sem mancha.
— Boa.
Andaram mais um pouco. Barraca de frutas.
— Agora você escolhe a fruta da semana — Luísa disse.
— Eu?
— É. Você vai comer também. Pode escolher.
Pedro olhou as frutas. Abacate, banana, maçã, mamão.
— Maçã — ele disse.
— Quantas?
— Umas seis.
— Quanto custa?
Ele olhou o preço. — Seis reais.
— Tá no orçamento?
Pedro hesitou. — Quanto é o orçamento?
— Pra feira, cinquenta reais. A gente já gastou doze no alface, tomate, cebola. Pode gastar seis em maçã.
Ele fez a conta. — Sim.
— Então pega.
Pedro pegou as maçãs. Colocou na sacola. Pela primeira vez, ele pareceu interessado no processo.
— Na sua idade — Luísa disse enquanto pagavam —, eu ia na feira com minha mãe toda semana. Ela me dava dez reais e falava: *compra o que você quiser pro lanche da semana.*
— E você comprava?
— Comprava. Uma vez comprei só biscoito. Não sobrou pra fruta. Ela não interferiu. Só na outra semana falou: *vai repetir o erro?*
Pedro riu.
— Não repeti.
— É assim que se aprende — Luísa disse. — Errando com pouco pra não errar com muito.
Caminharam de volta. O sol esquentava. Pedro segurava a sacola.
— Posso fazer o lanche da semana amanhã? — ele perguntou.
— Pode.
— Sozinho?
— Sozinho.
Ele não disse nada. Mas endireitou as costas no meio do caminho.
*Continua em: livreto-094.md — Carlos — Filho com necessidades especiais*