Era domingo à noite. Carlos estava na sala arrumando os brinquedos do Miguel quando viu Pedro no celular. O rosto do menino estava fechado.
— Tudo bem? — Carlos perguntou.
— Tudo.
— Tem certeza?
Pedro colocou o celular de lado. — Um cara na escola fica pegando no meu braço. Aperta. Fala que é brincadeira.
— E é brincadeira?
— Não. Dói. E ele não para quando eu peço.
Carlos parou de arrumar os brinquedos. Sentou no sofá do lado do filho.
— O que você faz quando ele não para?
— Falo mais alto. Empurro. Às vezes finjo que não é comigo.
— E o que você gostaria de fazer?
— Dar um soco na cara dele.
Carlos respirou fundo. — Eu entendo. Mas não é sobre isso.
— Sobre o que é, então?
— É sobre o seu corpo. Ninguém encosta em você sem sua permissão. Nem brincando.
Pedro olhou para o pai.
— Parece exagero.
— Não é. Se você disse não, a pessoa insiste, não é mais brincadeira. É desrespeito.
Carlos apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Seu corpo é seu. Sempre. Desde pequeno. Quando você era criança, eu e Luísa ensinamos que ninguém podia tocar em você sem sua vontade. Continua sendo a mesma regra.
— É diferente na escola — Pedro disse.
— Sei que é. Mas a regra não muda. Você pode falar não. Pode se afastar. Pode pedir ajuda.
— Pedir ajuda parece fraqueza.
— Fraqueza é deixar alguém fazer algo com você que você não quer. Força é saber quando parar, quando falar, quando chamar alguém.
Pedro ficou em silêncio. Pegou o celular, colocou no bolso.
— Se eu falar com a coordenadora, eles vão chamar de dedo-duro.
— E se não falar, vai continuar apertando seu braço até quando?
Pedro não respondeu.
— Olha — Carlos disse —, você não precisa resolver sozinho. A gente pode pensar junto. Amanhã cedo, se ele encostar em você de novo, você fala: *"Não encosta em mim."* Claro, direto. Se ele continuar, você sai de perto e vai falar com a coordenadora.
— E se ninguém fizer nada?
— A gente descobre o próximo passo. Mas o primeiro passo é seu.
Pedro olhou pro pai. Os olhos dele estavam diferentes.
— Tá bom.
— Boa.
Carlos apoiou a mão no ombro do filho. Dessa vez com leveza.
— Seu corpo é seu — ele repetiu.
*Continua em: livreto-091.md — Luísa — Escolha sexual dos filhos*