Como se relacionar com os amigos dos filhos?

Luísa

A campainha tocou. Luísa abriu a porta e encontrou dois garotos de moletom, mochila nas costas, um skate debaixo do braço.

— A Luísa? — o mais alto perguntou.

— Ela mesma. — Luísa sorriu. — Você deve ser o Gabriel.

— Isso. E ele é o Léo.

— Entra, gente. O Pedro tá no quarto.

Os dois entraram. Olharam em volta. O Toby veio cheirar os pés deles.

— Que cachorro maneiro — o Léo disse.

— Toby. Caramelo legítimo.

Gabriel riu. Passou a mão na cabeça do Toby. O Toby abanou o rabo.

— Pode deixar as coisas na sala. — Luísa apontou pro sofá. — Querem alguma coisa? Água, suco?

— Água, obrigado — Gabriel disse.

Enquanto enchia os copos, Luísa observou pela porta da cozinha. Eles não estavam na sala. Tinham ido direto pro quarto do Pedro. O skate encostado na parede do corredor.

Carlos chegou da rua com o Miguel no colo. Viu os tênis dos meninos na entrada.

— Amigos do Pedro?

— É. Gabriel e Léo.

— Legal. — Carlos colocou o Miguel no chão. O bebê engatinhou na direção do skate.

Luísa pegou ele antes que colocasse o skate na boca.

Mais tarde, os meninos saíram do quarto. Gabriel parou na sala, olhou os quadros na parede.

— Esse é design da senhora? — ele perguntou.

— É. Trabalho com isso.

— Maneiro. Minha mãe tem uma impressão sua na sala. Ela comprou numa feira.

Luísa sorriu. Ficou surpresa. — Sua mãe comprou meu trabalho?

— É. Ela fala que a senhora tem um olhar diferente pra cor.

Luísa sentou na poltrona. — Você gosta de arte?

— Faço umas coisas. Nada profissional.

— Quer ver meu estúdio?

Gabriel hesitou. Olhou pro Léo. — Pode?

— Claro. Fica ali.

Levou os dois até o escritório. O monitor grande, os croquis na mesa, a prancheta. Gabriel olhou tudo com calma. Fez perguntas sobre as cores, as fontes, o processo.

Luísa respondeu. Nada técnico demais. Só o que interessava.

Na despedida, Gabriel disse: — Obrigado. Foi legal.

— Voltem sempre. — Luísa segurou a porta. — Mas avisem antes. Pra eu comprar mais biscoito.

Os dois riram.

Quando a porta fechou, Carlos apareceu na sala.

— Ele perguntou do teu trabalho?

— Perguntou.

— Legal.

Luísa olhou pela janela. Os dois meninos desciam a rua, o skate debaixo do braço.

— É só mostrar interesse — ela disse. — Eles não precisam de super-herói. Precisam de adulto que pergunta, que escuta, que não julga.

*Continua em: livreto-090.md — Carlos — Consentimento e limites*